ZINGG

Artigo sobre o fotógrafo David Drew Zingg publicado no caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, no domingo passado.

Descomplicação.

Conheci o David Zingg no começo dos anos 70, no Rio de Janeiro. Foi num jantar no Antonio’s e ele, na época um dos grandes nomes da fotografia carioca, estava precisando de um assistente para um ensaio de moda que faria no dia seguinte. Quase me joguei a seus pés para conseguir a vaga. Era nos tempos da novela Dancing Days e as fotos que o Zingg faria, com um casal de modelos, aconteceriam no interior de uma discoteca (era assim que se chamavam os lugares em que as pessoas se encontravam para dançar da mesma maneira que Sonia Braga e Paulette dos Dzi Croquettes o faziam na trama de Gilberto Braga), à noite e aberta ao público. O Zingg resolveu a situação, que para mim se apresentava como mega complicada, em pouquíssimo tempo. E quando terminou, sem piscar, foi dançar com a modelo enquanto eu guardava e carregava o equipamento de luz de volta para o carro — é para isso que servem os assistentes, para deixar o fotografo de mãos livres.
O Zingg era uma figura que formava parte do folclore do Rio de Janeiro, o que por si só, naquela época, já implicava um status de ser um ícone nacional. Diz a lenda que ele apareceu em terra brasilis acompanhando uma regata, se encantou pelo país e foi ficando... Até ficar de vez em 1965. Foi, antes de mais nada, um caso raro de jornalista que decidiu se tornar fotógrafo. Ele tinha trabalhado por sete anos como repórter da revista americana Look antes de decidir trocar o bloco de papel e a caneta pelo filme e a revelação.
Aliás, o que não faltam são lendas sobre o Zingg. Outra delas conta que teria velejado com o presidente John Kennedy em um verão americano. Como vi, com estes olhos que a terra tem há de comer, uma foto do Kennedy em um veleiro, feita pelo Zingg, aviso desde já que acredito em todas, absolutamente todas, as lendas que o cercam.
No fundo, o que o Zingg queria era viver e ver a vida de perto. E no Rio de Janeiro, mesmo naqueles tempos de ditadura militar oprimindo corações e mentes dos brasileiros, o Rio se encaixou perfeitamente no que ele procurava.
Por causa de sua curiosidade, seu talento em ouvir e falar na hora certa a frase perfeita, o Zingg era o querido das personalidades do momento. E só ele sabia conseguir com elas fizessem o que pedia: Elke Maravilha envolta em lençóis de cetim como Marilyn Monroe, Juscelino Kubitschek com os pés sobre a mesa, Tostão com chapéu de mexicano, Leila Diniz grávida e nua (ou ao contrário).
Mas as belas imagens não ficavam presas ao universo de celebridades. A foto de Zingg chamada Casal Misto(Coleção Pirelli/Masp, 1980), em que seu olhar faz a câmera enquadrar os torsos de uma moça branca e um negro com o dobro do tamanho dela (se bem que existe outra versão em que eles estão mais abraçados é me parece melhor), é o símbolo daqueles dias, daquela praia, e desse fotógrafo que gostava de ver a vida de perto e o sabia fazer como ninguém. Armado com um sorriso maroto e um bom humor à prova de tempestades, o Zingg se encaixava em qualquer situação e deixava todo mundo à vontade.
E todo mundo queria ouvir o seu comentário certo na hora certa. Fosse ele fotográfico, verbal ou até escrito. Por vários anos ele teve uma coluna na Folha de S. Paulo em que exibia sua doce ironia sobre temas nacionais da mínima importância. O Zingg sabia que é nos detalhes em que mora o essencial.
Na coleção de imagens que o IMS publica nesta esplêndida edição Foto-gráfica (20 imagens feitas nas décadas de 1960 e 1970, em São Paulo, Rio, Brasília e Mato Grosso) está o olhar que o Zingg dirigia para o cotidiano, para as coisas simples da vida. O fotógrafo que ali comparece é o viajante de olhar atento e incisivo a qualquer detalhe. Nada lhe escapa. E, neste caso, os cartazes com intervenção manual, placas e qualquer tipo de letreiro são o ponto condutor da série de imagens. Como se fosse uma espécie de Walker Evans tropical, em sua fase gráfica. Porém, ao contrario de Evans, que enquadrava com uma precisão cerebral, o Zingg vai recolhendo as imagens que aparecem no seu caminho com extrema qualidade também, mas sem deixar de piscar um olho de cumplicidade em nossa direção.
Existem, de acordo com o Ruy Castro, dois tipos de pessoas no mundo: as que se levam a sério e as que fingem que não se levam a sério. O Zingg fazia questão de fazer parte do segundo grupo, o que, pode parecer paradoxal, melhorava ainda mais a qualidade de sua produção. O que transparece em todas essas imagens é a maneira direta, descomplicada com que ele via o mundo. A vida. E como ele resolvia os problemas fotográficos. Confesso que até hoje, em fotos noturnas, ainda tiro da manga a maneira de iluminar que aprendi com o Zingg em uma distante noite de verão carioca.

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INDEPENDENT

Lapo Elkann para a revista Vogue.

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WISH

O texto "Os Fantasmas de Duran", de Tom Cardoso, publicado na revista Wish.

Onde o festejado fotógrafo gosta de estar quando não está viajando? Viajando. E ele só vai parar quando o menino que está dentro dele morrer. Ou seja, nunca

Os pais de J.R. Duran não viajavam, quase não saíam de casa. O menino catalão, leitor compulsivo, também: o jeito era viajar por meio dos livros. A literatura o empurrou para o mundo, para os lugares mais remotos e inóspitos, numa espécie de viagem transcendental que não foi suficiente para saciar sua curiosidade. Ele precisava estar ali. O tempo passou. O garoto virou um dos mais respeitados fotógrafos de moda e publicidade do Brasil, excelência que lhe rendeu convites para produzir campanhas em dezenas de países, nem sempre em lugares que ele escolheria como destino turístico, mas que sempre o enriquecem de alguma forma. Para Duran, toda viagem é uma viagem. Sim, ele já passou por alguns dissabores – faz parte do jogo –, mas prova cada vez menos. Diz conhecer todos os truques e manhas para fazer do aeroporto e do avião uma espécie de extensão de sua casa (nesta entrevista ele dá preciosas dicas) – o que pode parecer loucura para os que têm aversão a viagens, sobretudo de aeroportos. A fobia de Duran é outra. Coloque-o esparramado numa cadeira de praia, para apreciar
o pôr do sol. “É morte súbita, na certa”, brinca. Não combinaria com o espírito inquieto do fotógrafo. Mesmo nos intervalos das viagens a trabalho, a ordem é não parar. “Quero dormir em reais e não em dólares”, responde, de bate-pronto, toda vez que alguém sugere que ele fique mais tempo no hotel descansando. Quando ficar no quarto de hotel se torna, por algum motivo, inevitável, Duran não se entrega. Quase sempre muda os móveis de lugar. E pinta. Existe um livro – Caderno de Viagens, Editora Benvirá – só com aquarelas pintadas pelo insone fotógrafo, acompanhadas de anotações sobre as respectivas cidades. No livro, ele registra a passagem por 54 quartos de hotéis, em 35 países, além do Brasil. São viagens a trabalho, quase sempre superproduções, ao lado de modelos, assistentes de fotografia, produtores. São viagens que Duran também curte. Mas o que o fascina, cada vez mais, é a oportunidade de viajar sozinho, quando ele pode tirar os esqueletos do armário e enfrentar, os fantasmas da infância.

- Até que ponto as viagens o beneficiaram profissionalmente? Você seria J.R. Duran se não tivesse saído de casa?
- Não tem a ver. A viagem é algo pessoal. Por muito tempo eu viajei em grupo, com muita gente, por conta da profissão. Com o tempo, passei a viajar sozinho, muito por causa dos lugares que eu passei a visitar, mais distantes, inóspitos. Aí não dava para levar a equipe, produtores, maquiadores, modelos. Tinha que ir sozinho mesmo.

- Mas não é possível afirmar que o seu espírito aventureiro enriqueceu de certa forma o seu trabalho?
- Não sei, talvez. Mas a minha paixão pelas viagens, pelas descobertas de novos lugares, está muito mais associada ao meu entusiasmo pela literatura, por exemplo, do que à fotografia. Se eu posso fazer qualquer relação entre as duas atividades – fotografar e viajar –, eu diria que a curiosidade sempre me moveu. Virei fotógrafo para saciar a minha curiosidade, para preencher lacunas, gavetas. Com as viagens também foi assim. Passei a ir para lugares que despertaram minha curiosidade a partir de livros que devorei na infância e na juventude, ainda na Espanha.

- Pode dar alguns exemplos de livros que atiçaram o seu espírito viajante?
- Há muito tempo sou apaixonado pelas aventuras em quadrinhos do Corto Maltese e pela personalidade de seu criador, Hugo Pratt (1927-1995). Eu decidi seguir seu rastro e fui parar num pequeno e desconhecido país, no Nordeste africano, chamado Eritrea, onde Pratt passou a juventude. Eu tinha que ir para lá de qualquer jeito. Fica entre o Sudão, a Etiópia e a Somália.

- Vira uma obsessão?
- Bem, não chega a virar uma obsessão porque, antes de isso acontecer, eu já estou no lugar. Imagino que seria complicado se eu decidisse, a partir de algum livro, entrar na Coreia da Norte, o país mais fechado do mundo. Se bem que Eritrea, na lista de países com liberdade de imprensa, é o penúltimo. Perde justamente para a Coreia do Norte.

- Então foi duro chegar lá...
- Mas eu diria que a preparação foi tão genial quanto a viagem (risos).

- Depois de entrar em Eritrea, o próximo passo é chegar à Coreia do Norte?
- Não, por um motivo muito simples: eu viajo para encontrar os meus fantasmas e não os dos outros. Não li nenhum livro, não tenho nenhuma curiosidade que me leve para a Coreia do Norte. Eu não quero escalar o Everest. Quero, repito, saciar a minha curiosidade. Em Eritrea, por exemplo, tinha tanta coisa para descobrir, para ver. Sabia, por causa das minhas leituras, que Asmara, a capital do país, tinha sido transformada, por causa de (Benito) Mussolini (ditador fascista) numa cidade futurista, com uma arquitetura art déco em plena década de 30 – essa arquitetura está toda preservada, intacta, porque a guerra não conseguia chegar a Asmara.

- E onde estão os próximos “fantasmas”?
- Eu quero muito ir para o Norte do Sudão, entre Cartum e o Cairo. Descendo o Cairo, subindo para Cartum, existem muitas pirâmides, onde pouca gente chegou. Mas eu preciso achar um cara confiável que me leve lá. Os guias italianos que faziam essa viagem sumiram.

- Qual foi a primeira viagem na infância que lhe causou grande impacto?
- Os meus pais não viajavam. Eu tinha brinquedos e tudo mais, mas não viajava. É por isso que hoje eu vou atrás do que eu não tive. Eu fui entrar num avião relativamente tarde, com 18, 19 anos. Aprendi a dirigir com 20.

- E você continua pintando aquarelas nos quartos de hotéis? Vem aí uma segunda versão de Cadernos de Viagens?
- Grande parte das aquarelas que está no livro, eu pintei a trabalho. Eu nunca vou para um lugar para fazer algum desenho. O quarto de hotel é apenas um ponto. Aliás, eu mexo muito no quarto. Mudo a cadeira, a cama, coloco uns livros. Mas quase sempre não quero ficar no quarto. Eu quero dormir em reais, não quero dormir em dólares. O hotel tem que ser legal, claro, mas se estou fora do Brasil eu quero ficar o menos tempo possível ali.

- Mas você não tem fantasmas para serem descobertos no Brasil?
- Não, eu não tenho passado no Brasil. Os meus fantasmas estão todos lá fora. Aliás, a estrutura de viagem aqui é sempre complicada. Ou você fica em lugares top, que custam cinco vezes mais do que vários da Europa, ou você paga bem menos e fica num esquema complicado. Eu quase sempre escolho os lugares complicados.

- E quando terminarem os fantasmas, você vai para onde?
- Não vão terminar. Tem muita coisa que quero visitar ainda. Eu estive em Berlim por causa dos 25 anos da queda do muro. Eu tinha que ir para lá – era outra memória de infância. Eu me lembrava de ouvir, ainda na Espanha, relatos horríveis sobre o muro, de gente morrendo tentando pulá-lo. Se você
me colocar deitado numa praia, olhando para o nada, sem que eu tenha qualquer associação com o lugar, é morte súbita na certa.

- Uma viagem é sempre uma viagem ou você às vezes vira um grande mico?
- Eu sempre gosto, mesmo que seja uma viagem a trabalho. Viajei recentemente para a Grécia, numa superprodução, com 45 pessoas. E foi prazeroso. Eu gosto de avião, de aeroporto. E não é por causa das compras. Eu não compro nada, absolutamente nada, no dutty free. É porque eu gosto de estar ali. Eu me sinto bem. Também domino tudo aquilo, consigo alguns milagres.

- O que é dominar um aeroporto?
- Consigo fazer um check-in em cinco minutos. Entro num avião em cinco minutos. Pego sempre a fila mais curta. O meu assistente outro dia falou: “Depois que comecei a trabalhar com você, nunca mais peguei uma fila longa”. Tem a arte das milhagens. A maioria das pessoas quer ter milhas para trocar por passagens. Eu quero para ser bem tratado no aeroporto. Quero sempre acumular milhas.

- Então você é uma espécie de versão brasileira daquele personagem do George Clooney, no filme Amor Sem Escalas, que passa mais de 300 dias por ano viajando e completa a meta de 10 milhões de milhas?
- Não é bem assim. Primeiro, jamais terei a milhagem dele. Segundo, porque não acumulo milha para chegar a uma meta, e sim para ser tratado bem pelas pessoas. Vou dar um exemplo prático: nessa viagem que eu fiz para a Grécia recentemente, eu tinha que voltar para o Brasil num voo cansativo, longo, com escalas: primeiro Santorini-Atenas, depois Atenas-Zurich e, por fim, Zurich-São Paulo. Quando cheguei a Zurich, eu tinha direito, por causa do meu cartão de milhagem, a uma sala VIP. Não queria estar ali só por ser uma sala VIP. Eu tenho implicância com esse nome. É porque lá tinha um chuveiro. Eu, que já estava com a minha mala de mão, tomei banho e troquei de roupa. Conheço os atalhos, eu domino aquilo. Sei viajar. Assim como um cara que viaja muito de ônibus sabe que o assento que fica em cima do pneu é uma droga, ou que é preciso levar um cobertor próprio porque o da empresa é sempre fininho...

- Mas você deve ter passado por algumas aporrinhações, não?
- Sim, mas quase sempre estou pronto para elas. Voltando de Berlim, eu vi um casal entrando no avião já discutindo. A mulher estava furiosa: “Ah, além do mais eu vou ter que me sentar no meio”. Numa fila de cinco cadeiras, numa viagem de 12 horas, sentar-se no meio é mesmo muito duro, horrível. E quando isso acontece comigo, eu já me preparo para aquilo: compro um bom queijo, um mega vinho e vou tomando durante a noite. Quase sempre apago, durmo profundamente. Você sempre vai me ver feliz num avião, seja na ida, quando estou contente por ir, seja na volta, quando estou alegre por voltar para a minha casa.

E por que o Brasil?
Tenho uma paixão por este país. Eu me casei duas vezes com o Brasil. Na primeira vez, em 1970, quando cheguei aqui. Em 1989 fui morar em Nova York. Voltei quase dez anos depois. Eu continuo viajando para o mundo inteiro, para os lugares perdidos da minha memória, mas a passagem de volta tem que ser sempre para o Brasil.

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FINA ESTAMPA

As alunas da ONG Spectaculu para a revista Vogue de fevereiro.

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