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TRÊS

Três capas em branco e preto (coisa rara) com Lea T., Bruna Marquezini e Sabrina Sato, feitas nos últimos meses para a revista RG.

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LALIBELA

Texto e fotos sobre Lalibela, na Etiópia, publicados na revista Audi Magazine #91.

Viagem no tempo.
“Alto falante do aeroporto em Adis Abeba chama para o voo a Lalibela. Fila. O policial pergunta ao passageiro na minha frente para onde ele vai. “Lalibela” é a resposta. Não, suspira o homem da lei e da ordem, a fila não é esta. E o passageiro tem de pegar uma outra fila. Bem mais longa. Nesta sobramos apenas três tontos. Quando chega minha vez, sem eu falar nada, ele pergunta “Mekelele?”. Minto e digo que sim; me faz seguir em frente. Depois de passar pelo x-ray pergunto para a mulher da companhia se este é o voo para Lalibela. Sim; ela me confirma isto depois de passar algum tempo teclando na frente do computador. Ate agora não sei como consegui chegar até aqui, ao hotel em Lalibela ”. “Meu guia, que me mostrou as igrejas do grupo Norte (tem outras) se chama Joseph e o que ele me contou difere um pouco do texto do ‘Lonely Planet’ . Se bem que algumas informações do livro também podem estar desataulizadas. Diz, por exemplo, que a estrada que une o aeroporto de Lalibela com o povoado é muito ruim. Naquele dia estrada é excelente, como se tivesse sido asfaltada apenas para mim”. Do meu caderno Moleskine com a etiqueta “Ethiopia” colada na capa.
Acordo, no meio da noite, no apartamento 311 do hotel Roha em Lalibela. Os números fosforescentes do relógio, em pé no criado mudo, marcam 00:22 e lá fora uma tempestade de magnitude considerável provoca relâmpagos e trovões em escala de bilionária superprodução cinematográfica. Os raios tem a intensidade suficiente para fazer com que a escuridão do quarto seja clareada por longas frações de segundo, perfeita iluminação para um filme de terror. A forte chuva despenca pela tela do mosquiteiro - da janela que ontem teimei em deixar aberta - e forma uma piscina olímpica nas tábuas de madeira do chão. Porem o que me faz acordar não é a fúria da natureza desabando do lado de fora, meus olhos acabaram de se abrir porque o cérebro esta me avisando que não estou conseguindo respirar. Meu nariz esta entupido, estou me sufocando e um gosto amargo desce para o céu da boca. Aperto as narinas com as mãos e corro, no escuro, para o banheiro. No instante em que acendo a luz e posso contemplar uma quantidade industrial de sangue escorrendo. O rasto de pingos termina na pia branca salpicada de vermelho. Tento, inutilmente, lavar o rosto com agua gelada, e única solução que se me ocorre é a de enfiar dois pedaços enormes de papel higiénico nas minhas narinas para estancar a hemorragia. Antes de apagar a luz, para evitar que mais besouros e mosquitos pousem nas manchas que acabei de fazer pelo quarto, me lembro do homem que vi ontem, ao desembarcar no aeroporto; estava equipado com os mesmos papeis saindo do nariz e andando, tranquilamente, pelo saguão. A altura de Lalibela e o ar seco tem o mesmo efeito que Cuzco produz nos viajantes (umas horas antes enquanto estava escrevendo, gotas de sangue já tinham caído, sem aviso prévio, sobre as páginas brancas de meu caderno). Finalmente consigo fechar os olhos e, então, o remédio que comecei a tomar contra a malária uns dias atrás continua produzindo efeitos nos meus sonhos (a bula avisava desta possibilidade). Neste momento, se não me engano, Hilary Clinton esta no que parece ser a cozinha de minha casa, mas os moveis são os da cozinha velha. Me pede para uma dose de whisky que sirvo para ela em um copo extremamente sujo mas, típico dos sonhos, o que ela recebe é um moke-up de caipirinha. Ela ri muito porque esta muito bêbada. Tudo se apaga. Mesmo com os mosquitos terem ficado do lado de dentro do apartamento.
O sol que aparece em Lalibela, na manhã do dia seguinte faz com que todas as memórias da noite; o sangue, os besouros, os relâmpagos e Hillary pareçam uma só alucinação. Nos dias seguintes ficção e realidade se misturarão da mesma maneira, seja nos guias de viajem escritos ou nos que me acompanham pelas montanhas sagradas de Lalibela.
A primeira igreja que me aparece, do nada, é a de St. Gyorgis. Numa virada do caminho, enquanto os olhos se distraem com os galhos retorcidos de uma árvore seca, surge um buraco imenso na pedra e, dentro dele, a construção de dois andares. Apenas uma figura, local, divide comigo a paisagem. Na beira do mini abismo um padre cóptico parece que, desde sempre, esta esperando a minha chegada. Está lá, em pé, me olhando e abraçado a uma Bíblia.
A fé remove montanhas e no caso das igrejas de Lalibela foi isso mesmo que aconteceu. Perseguidos pelos mercadores de escravos os primeiros cristãos ortodoxos decidiram fazer as construções abaixo da linha do horizonte de maneira que, desde longe, elas desaparecessem da visão dos predadores humanos e fosse mais difícil detectar sua localização. O detalhe é que o chão é rochoso e os dois andares da igreja são para baixo. A contemplação da forma monolítica produz uma certa estranheza, é como se olho humano tivesse se transformado em pássaro e pudesse observar o movimento das pessoas a uma altura confortável.
St.Gyorgis não é a maior mas é a mais bonita das onze igrejas escavadas no século XII. O interior e maior do que as aparências externas permitem imaginar, a luz difusa que se filtra das janelas e a vibração provocada pelos fantasmas dos milhares de peregrinos que já passaram por ali é desconcertante. Uma das previsões do ‘Lonely Planet’ diz quanto a quantidade de pulgas que podem ser encontradas dentro das igrejas. Faz sentido; a humidade, os tapetes superpostos e a escuridão seriam um bom habitat para os insetos. Como a visita tem de ser feita descalço, o livro sugere que você entre nelas calçando meias - especialmente das que são distribuídas a bordo dos aviões me viagens intercontinentais - desta maneira elas podem ser deixadas para trás depois da visita. Confesso que saí ileso, nenhuma pulga se atreveu a picar meu corpo durante o tempo que passei em Lalibela.
A cada igreja corresponde um padre. Todos eles carregam uma chave, (o desenho varia) que da acesso a um pequeno recinto em que uma arca esta depositada. Pela tradição este é um lugar ao que, com exceção de dois ou três dias sagrados por ano, ninguém pode acessar, mas em troca de algum tipo de doação as portas se abrem para o visitante.
Um caminho une todas as onze construções que se dividem em dois grupos, as do norte e as do sul. O lugar esta dividido por um rio, o Jordanos. Diz a lenda que um dos reis etíopes, Lalibela precisamente, voltou da Terra Santa impressionado e decidiu construir uma réplica dos lugares mais marcantes com acurada precisão geográfica. Por isto o nome ao filete de agua que escorre entre as onze igrejas.
Uma vez por ano, durante a Epifania, Lalibela se enche de peregrinos de todos os cantos de Etiopia. O contraste da pedra iluminada pelo sol, as sombras densas recortadas nas paredes e as túnicas brancas dos fiéis forma um conjunto com um impacto visual capaz de fazer parecer que o passado ainda é hoje. E que aqui nada mudou. Durante o resto do ano, o sentimento é o mesmo mas a solidão, em comparação com o significado da obra, é acachapante.

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OH, LORIS!

Loris Kraemerh para a revista The President.

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Á MESA

Materia de Daniela D'Ambrosio, publicada no seção "Á Mesa Com O Valor" do jornal Valor Econômico.

O fotógrafo sem retoques
“O retrato é um duelo. Um na frente do outro. Os dois se olhando... Cada um tem que deixar o seu pedaço no papel. Um pedaço honesto, isso sim. Eu tenho que descobrir quem a pessoa é. O retrato é basicamente um perfil.”
Não há uma câmera entre a repórter e o respeitado e badalado – com perdão pela pobreza semântica – fotógrafo J.R. Duran. Jota e Erre que remetem muito mais às fotos de beldades (nuas ou vestidas) do que propriamente a Josep Ruaix, como consta na certidão do fotógrafo catalão. As armas, a caneta e um gravador. Durante quase duas horas travamos nosso duelo. De palavras.
O cenário para o embate é o Bistrô Charlô, restaurante intimista nos Jardins. É quase 1 da tarde de uma sexta-feira vestida de amarelo – bem adequada para uma foto externa, apesar da insistente poluição paulistana – quando começo a tentativa de capturar um pedaço honesto de J.R. Duran e retratá-lo nas páginas seguintes. Nesta edição, rompemos uma tradição da seção “À Mesa com o Valor” e, no lugar da habitual caricatura, publicamos um autorretrato assinado por nosso entrevistado.
A conversa flui, mas logo de saída se percebe que o nosso convidado não se despe tão facilmente quanto as belas mulheres que fotografa. Ele não quer as lentes e os holofotes sobre a família. É desconfiado a ponto de revelar uns poucos fragmentos mais íntimos apenas depois de ter certeza que o gravador está desligado.
Limite respeitado, nada mais parece tabu. O que faz do nosso um duelo um tanto amistoso. Duran deixa-se flagrar. Estampa um sorriso fácil diante de um comentário ou uma pergunta e solta alguns tantos palavrões, como se não se importasse (tanto assim) com o registro da conversa. E entrega, aos poucos, seus ângulos menos conhecidos. Do fotógrafo que não gosta de olhar fotos antigas. “Não dirijo carro olhando para o espelho retrovisor.” Do fotógrafo que pilota helicóptero. Do fotógrafo que conseguiu o quarto lugar no rali dos Sertões. Do fotógrafo que coleciona papéis de carta de hotéis e, nas inúmeras viagens que faz, envia cartas para si próprio (as lembranças lacradas são mantidas fechadas e, segundo ele mesmo, sem data para ser abertas).
O fortíssimo sotaque catalão – mesmo depois de 25 anos de Brasil –, o raciocínio ligeiro e a sagacidade exigem atenção do interlocutor. Ele que se esforce ou tenha inteligência suficiente para subentender as dezenas de frases incompletas e as costumeiras reticências soltas no ar.
Atrevido, perspicaz e desaforado confesso, Duran não alimenta clichês e foge, deliberadamente, dos consensos. “Nu artístico não existe. O que existe é foto boa ou ruim”, diz. Não acha que olhar diferenciado seja predicado dos fotógrafos. “Jornalista também é olho, escritor, policial, tudo depende do olhar, do “feeling”, sentencia. Não acredita que haja uma valorização maior do corpo atualmente. “Hoje se pode falar menos besteira e em muitos países se mostra menos o corpo do que há alguns anos.” E também garante que – mais do que belos seios – o que conta mesmo numa mulher nua é a personalidade. “É o que mais marca e fica no olhar, independentemente do tamanho da bunda ou do peito.” Mas quem compra revista masculina talvez não esteja interessado em personalidade, não? “Certamente, mas eu vejo assim.”
A memória, ele avisa, é seletiva. “Uma das razões pelas quais comecei a escrever é porque não guardo as coisas.” O mais velho de cinco irmãos se lembra pouco da infância na cidade de Mataró, na Espanha. Faz um longo silêncio quando questionado sobre a fase em que não tinha assinatura abreviada e revela: “Eu sei que não era um menino feliz e me lembro de muito pouca coisa.”
O arquivo visual começa a ficar impresso na mente a partir dos 12 anos. Foi quando começou a ler muito – teve o privilégio de possuir em casa uma biblioteca com quase 2 mil títulos – e a ir ao cinema três, quatro vezes por semana. “Nessa época começa a coisa da observação e a ansiedade ou necessidade de ver a vida de perto.” Duran dá os últimos retoques nas lembranças e o passado aflora. “Me lembro de estar na escola com o livro de geografia aberto seguindo as cidades e lugares que eu queria conhecer.”
A fotografia o conduziu muito mais longe do que os sonhos infantis podiam dedilhar. Aos 60 anos, passaporte sem espaço para tanto carimbo, Duran também coleciona cidades. Só não esteve na Oceania. Desde 1991, registra em arquivo de Word todos os lugares por onde passou – não faz ideia de quantos foram. Dos mais óbvios e prováveis aos mais remotos, como o Rajastão e a Eritreia, na África, onde foi resgatar o personagem Corto Maltese, de Hugo Pratt, herói predileto nas noites da Catalunha.
Diversos destinos viajaram na mala Prada de sempre. Dessas tipo sacola, na qual carrega sua econômica e prática bagagem. A mala muda. O modelo, não. Duran é daqueles que compram três pares do mesmo tênis e usa cada um até sucumbir. Numa viagem a Macau, na China, descobriu que a sola estava gasta o suficiente para estrear o segundo par quando sentiu os pés encharcados depois de um dia exaustivo. O terceiro ainda descansava em uma caixa, esperando pela aposentadoria do segundo. Alguém que lida o tempo todo com a vaidade alheia mitiga a própria. “Não preciso ser vaidoso, a minha vaidade é o que eu sei, ninguém consegue enxergar.”
Foi quase por acaso que Duran caiu nessa fogueira. E por causa da mãe, dona Núria, preocupada com a ociosidade do filho. Seu José, um industrial, resolveu trazer a família para o país quando o primogênito tinha 17 anos. Chegando a São Paulo, os pais estranharam o fato de que no Brasil se estudasse apenas meio período. Inaceitável para a mentalidade europeia. “Eu tinha que arrumar um trabalho.”
Foi providencial. Um fotógrafo catalão conhecido da família disse para o garoto ir ao estúdio quando quisesse. “Fiz corpo mole uns oito meses até acordar um dia e decidir ir”, conta. Enquanto ainda era assistente do assistente e perdia calças jeans limpando fundos e pincéis, um canto da seletiva memória reacendeu. Duran tinha guardada a imagem de uma prima casada com um fotógrafo 20 anos mais velho, com carreira consolidada em Barcelona. “As histórias que ele contava e a vida que ele levava tinham a ver com o que eu queria pra mim.”
A conversa está boa, mas Duran trata de nos lembrar que estamos em um restaurante. “Escuta aí, a gente almoça ou não almoça? Porque eu acordei às 6 da manhã, eu acordo cedo todo dia.” É pra já. Melhor não deixá-lo com fome para o duelo não azedar. O garçom, como se atento à conversa e ao olhar preocupado da repórter, aproxima-se prontamente. Entrega os cardápios e oferece uma taça de vinho. “Nunca numa entrevista. Esta é a regra número um: nunca beba numa entrevista”, enfatiza Duran. Sim, senhor. E, por via das dúvidas, pedimos todos mais uma rodada de água.
Depois dos pedidos – nosso convidado escolheu de entrada uma porção de croquete de presunto –, somos levados pelas suas reminiscências à belíssima Saint-Tropez. É desse sofisticado pedaço da Riviera Francesa, e não das “ramblas” ou das iluminadas obras de Gaudí que Duran tira seu ponto referencial de luz. A viagem com mais três amigos naquele verão sem pressa de 1969 – ano anterior à vinda para o Brasil – gravou na retina e no coração cores e sensações que ele procura reproduzir até hoje em suas fotos.
“A Espanha vivia a ditadura de Franco, a Barcelona daquela época era muito diferente de hoje. E a França, não. A França tinha “topless” e “joie de vivre”, uau, aquela alegria de viver”, diz, tomando emprestada uma entre muitas expressões em outras línguas que costuma usar – além do catalão, português e espanhol, Duran fala inglês, francês, italiano e alemão. “Sempre que penso nas minhas fotos, penso em coisas solares com uma luz, uma vida, uma energia que reproduzem de alguma maneira aquela realidade. Eu coloco as fotos em universos imaginários, os meus universos.”
Para pôr seu repertório nas imagens que levam sua assinatura, Duran faz questão de participar de todo o processo, desde a pré-produção. As fotos, conta, são construídas minuciosamente. “Elas não são reais, mas meu prazer é fazer parecer que são reais, é o oposto do fotojornalista.” Como num livro de ficção, Duran procura a verossimilhança nas fotos. “Quando a pessoa enxerga aquela imagem, ela se assemelha com alguma coisa que viu ou acha que viu.”
“A beleza ajuda na foto ou o que vale é a produção?” “Beleza não existe. A beleza é uma ilusão, uma convenção. Todo mundo pode ser bonito, todo mundo pode não ser.” “Mas as mulheres que você fotografa são deslumbrantes. Então qualquer pessoa pode ficar bonita?” “Claro. (dá uma risada larga.) Esse é o meu trabalho, se eu não acreditar nisso...”
O garçom chega com a entrada. Assim que dá a primeira mordida no croquete, Duran olha para o fotógrafo com certo ar de reprovação e diz: “Você vai me fotografar comendo croquete?” Pois um dos fotógrafos mais famosos do Brasil divide com a maioria dos entrevistados desta seção o mesmo receio de ser clicado com a boca cheia. Não se preocupe, Duran.
Fome sob controle, partimos para saciar a curiosidade geral e irrestrita sobre o cobiçado mundo das fotografias de nu feminino. Provocativo, Duran conta que começou nessa área para “encher o saco dos amigos”. Mas foi o apetite por uma vida bem vivida e a determinação que o conduziram para esse universo. Era fim dos anos 70 e o seu portfólio só tinha foto de mulheres vestidas. Foi quando resolveu propor para Carlos Gracetti – com quem tinha trabalhado na revista Pop e acabara de assumir a edição de arte da Playboy – fotos com a mesma luminosidade, classe e elegância que já marcavam seu trabalho. E mulheres sem roupa. “Eu nunca tinha fotografado mulher nua, mas decidi que ia fazer aquilo. Na minha vida tudo é assim, vou lá e faço.”
Fez teste com uma modelo e, aprovado, no mês seguinte fez a sua primeira capa: Alcione Mazzeo, casada na época com o humorista Chico Anysio. “Naquela época, se você fotografasse mulheres nuas, era um fotógrafo de segunda, terceira categoria. Ou melhor, era um cara sem categoria”, comenta. “Mas eu achei que poderia fazer isso com categoria e que, primeiro, seria pleasant, e segundo, por que não?”
Duran fez mais de cem capas da Playboy, com nomes como Xuxa, Luiza Brunet, Maitê Proença, Adriane Galisteu, Juliana Paes e Flávia Alessandra. Foram dele também capas recordes de vendas com musas instantâneas, como Tiazinha e Feiticeira (com mais de um milhão de exemplares). Também fez as mais recentes, nas quais corpo turbinado e fama são inversamente proporcionais.
Seja para fotografar corpos mais miúdos e seios naturais de anos atrás ou as versões mais esculpidas de hoje, Duran não apela para a sedução. “Eu não faço papel do fotógrafo sedutor, champanhe, isso não existe”, garante. “Não é um encontro, não é sedução, a palavra é cumplicidade.” Quando a pessoa chega lá, conta, já negociou com a revista, teve advogado envolvido – processo que, em alguns casos, dura meses. O que não impede que, na hora das fotos, umas fiquem mais inibidas do que outras. Mas sempre muito discreto, ele não menciona nomes. “Quem fotografa nu para revista masculina é por duas razões, vaidade ou dinheiro. Se é vaidade, não tem problema. Se for por dinheiro, tem que honrar com aquilo, é muito simples.”
“Você é um dos homens mais invejados do Brasil. Vê as mulheres mais cobiçadas sem roupa. Como é isso?” “Eu só vejo e qualquer um pode ver, não sou o único. Se eu ficasse saindo toda semana numa revista com um conversível ao lado dessas mulheres, se me vissem jantando, seria outra história.” “Mas você tem todos os bastidores ali.” “Tá, mas isso é bastidor.”
No seu livro “Cadernos de Viagem”, um diário sobre as viagens feitas entre 2008 e 2010, ele entrega um pouco mais. “Fotografar para a Playboy nem sempre é a festa que todos pensam.” E, mais adiante, revela: “Nem sempre as pessoas que aparecem na revista têm um corpo tão perfeito quanto as páginas impressas fazem acreditar. Em um par de ocasiões, eu não sabia nem por onde começar porque não tinha o que mostrar.”
No livro, lançado no fim de 2012, não há uma única foto. Duran solta o traço e retrata em aquarelas os quartos de hotéis onde ficou hospedado naquele período. Feitos sempre no moleskine nas noites de insônia ou na meia hora que reserva para registrar com letra de forma suas viagens, os textos nos remetem a outro Duran. Versátil, o senhor das imagens também é apaixonado por palavras [uma viagem pela realidade dos seus universos imaginários, o livro é repleto de notas de rodapé, que podem render mais páginas do que o próprio capítulo. Em letras de corpo miúdo, estão curiosidades, contextos, trechos e referências aos muitos personagens, livros e filmes que o fotógrafo coleciona na memória seletiva].
Duran também escreveu dois livros policiais, “Santos” e “Lisboa”. Tem mais um pronto, que deve ser lançado entre o fim deste ano e início do próximo. Dessa vez, o cenário escolhido foi Macau, outra cidade à beira-mar, onde também se fala o português. “Circulo numa área muito curiosa e os limites criativos sou eu que coloco”, diz. “A coisa mais libertadora do mundo é sentar e escrever um livro. Depois, se ninguém ler, tanto faz. Não escrevo para os outros, escrevo para mim, para me divertir, para me contar uma história.”
Chegam os pratos. J.R. Duran, que não perde a acuidade visual nem na hora de se alimentar e só come o que tenha boa aparência, vai de ravióli de cordeiro. Enquanto aprecia o belo prato e afaga o estômago, pergunto a Duran o que há – e se há – algo negativo nessa profissão aparentemente cheia de encantos. Ele conta dos imprevistos que “dão cambalhotas no estômago, chutado pela úlcera”, do olho na câmera e outro no céu para programar o trabalho da melhor maneira possível e da tensão que pode beirar o insuportável em algumas produções – contratempos descritos no livro. “Eu parto da base de que nunca nada vai dar certo, mas os problemas são sempre os mesmos. Nunca faz sol no dia certo, meu cabelo branco é cem por cento por causa disso.”
As famosas iniciais e o sobrenome ganharam fama pelos editoriais de moda, campanhas publicitárias e fotos femininas, mas Duran também capta flagrantes do cotidiano. Realidades que não foram lapidadas por cabeleireiros, maquiadores e produtores. Boa parte dessa produção – acumulada e catalogada durante anos – está na Revista Nacional, criada pelo fotógrafo. Anual, a revista já teve três edições e Duran está preparando a quarta. Tem desde modelos nuas e fotos antigas inéditas (como Luiza Brunet no início da carreira) até fotos do Padre Marcelo e do Zé do Caixão (na mesma edição) e ensaios com índios na Amazônia ou com vaqueiros nordestinos, feitos especialmente para a revista. “Eu fotografo, faço a edição de arte, ligo para as pessoas, entrevisto”, conta e tira um envelope pardo da maleta preta. Desenrola e mostra o seu gravador.
A proposta é diferenciada. Não há título nas matérias - apenas uma palavra que sintetiza o que virá. Não há chamada, crédito ou legenda nas fotos. Também não há anúncio. “Se tivesse anunciante, a revista me custaria mais caro. Se tem anunciante, tem dinheiro entrando e você tem que pagar as pessoas. O que eu não posso fazer é ganhar dinheiro e pedir que as pessoas façam de graça. Eu sempre me recusei a trabalhar de graça para quem ganha dinheiro e não faria isso com os outros.” Os amigos colaboram com textos e a gráfica Burti financia a reprodução dos dois mil exemplares – metade Duran distribui para os seus clientes e a gráfica fica com a outra metade.
Enquanto escolhemos a sobremesa, pergunto sobre os limites do Photoshop e da manipulação das imagens nos dias de hoje. Você usa? “Eu contrato pessoas que usam. O Photoshop serve para criar fantasias, colocar um céu no lugar de outro, mas, quando se aplica nas pessoas e você enxerga que alguma coisa está errada, é porque está malfeito. E aí alguém se deu mal.” Leia dar-se mal como eufemismo na impossibilidade de publicar o palavrão dito.
Nosso convidado escolhe torta de marzipã e chocolate de sobremesa. Até que o enorme e belo (para seu deleite) doce chegue à mesa, o assunto ruma para Twitter, Facebook e Instagram. O primeiro ele usa. O segundo ignora. E o terceiro repudia. Duran pergunta ao fotógrafo se ele tem Instagram. “A única coisa com que ele pode ganhar dinheiro, ele dá de graça. Eu não vou dar de graça a única coisa que tenho para vender.” No Twitter, Duran exercita o lado mais ácido. Pode ser num comentário sobre a novela ou sobre assuntos recorrentes na rede. “O Twitter é como eu sou, não perdoo. É como uma roda de amigos, serve para falar bobagem e, se alguém não gostar, tchau, procura outra mesa. Ser rico em seguidores é o mesmo que ser rico em banco imobiliário, não serve pra nada”, debocha. “As pessoas são carentes. Eu não sou carente.”
O fotógrafo que vive correndo atrás de prazo e da luz do sol percebe que está atrasado para a próxima sessão de fotos. O celular – cuja quantidade de megapixels pouco lhe importa – ficou no estúdio, certamente aos berros. “Só vou tirar foto de celular no dia em que minha câmera receber ligações”, afirma, dando mais munição para o seu retrato. Antes que se vá, entra na mira pela última vez. E não se rende. Já se impressionou com a beleza das mulheres que fotografa? “Sempre, sou muito impressionável.” Arranca a segunda rodada de risos da mesa e nos entrega mais um pedaço de si. Honesto, isso sim. Nosso duelo termina.

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FOLLOW THE SUN

Flávia Luccini, Fabiana Semprebom e Alicia Kuczman para a Cia. Marítima.



SOCCER

Alexandre Pato para a revista Estilo.

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BLOGUEIRAS

Lalá Rudge, Thássia Naves, Camila Coelho, Helena Bordon e Camila Coutinho para a revista Glamour.

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UIA!

Antonia Fontenelle para a revista Playboy.

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SILÊNCIO

A coluna publicada na revista Trip de junho.

O Concorde foi um avião de passageiros feito para viajar a uma velocidade maior do que a do som. Comparado com as aeronaves de hoje, e da época também, era relativamente pequeno, cabiam nele apenas cem passageiros, mas esta centena de privilegiados podia decolar de Londres e estar em Nova York quatro horas depois graças à velocidade do aparelho que podia alcançar os 2.500 quilômetros por hora. Dentro do avião, bem à vista dos intrépidos passageiros, existia um relógio digital (ficava sobre a porta de entrada no corredor da cabine) que marcava a velocidade alcançada. Se considerarmos que o som se propaga a 1.200 quilômetros por hora, não demorava muito em se ouvir o pequeno estrondo que fazia o Concorde ao furar a barreira do som.
Desde que os aviões de caça foram aperfeiçoados durante a Segunda Guerra Mundial, os engenheiros tentaram criar uma estrutura voadora que superasse a barreira do som. O Concorde começou a voar em 1976 e a sua trajetória se encerrou pouco depois que um dos aviões sofreu um trágico acidente, no qual morreram 113 pessoas.
Não sou engenheiro aeronáutico e só tive a chance de voar no Concorde uma vez, mas, se dependesse de mim, a barreira do som nunca seria quebrada. E digo mais, o respeito ao silêncio seria a 13ª norma que eu sugeriria que fosse colocada nas Tábuas da Lei, caso uma enquete pública viesse a ser feita.
Criaria, de alguma maneira, outra barreira: a do silêncio. E, acima de tudo, o ensino para que ela não fosse quebrada. Porque, sim, senhoras e senhores, sou parte destas pessoas que acham que só o silêncio salva.
O cachorro do vizinho que a rua inteira ouve latir e apenas seu dono não parece perceber o quanto é irritante, o escapamento do carro (da moto, do caminhão, do ônibus) que parece estar desajustado de propósito. A música alta do empregado que se diverte sozinho na casa porque o patrão saiu de viagem e o bairro inteiro é obrigado a compartilhar. O desnaturado que pensa que repetir "pamonhapamonhapamonha” com a ajuda de um alto-falante até acordar os que estão dormindo fará com que eles desçam correndo do prédio para comprar as malditas pamonhas. Os que buzinam. Os que falam em voz alta no cinema, no ônibus, na sala de espera. Os motoqueiros de Harley que exibem sua barriga nos sábados de sol e aceleram ao cruzar com alguma menina na rua. Todos eles – e muitos outros casos mais – seriam mandados para queimar no fogo eterno.
O silêncio não só ajuda a dormir, a descansar, a pensar e a se entender, como é uma barreira invisível que, além de proteger os tímpanos, evita passar por situações constrangedoras. A necessidade que as pessoas parecem ter de se expor, seja por palavra (textos e mais textos nos blogs) ou por obra atestada pela imagem (fotos e mais fotos desnecessárias e desinteressantes no Instagram), expõe uma carência afetiva que entope os ouvidos e os olhos de qualquer um. Um amigo meu decidiu vender plaquinhas com a frase: “É muito melhor ficar quieto e parecer uma anta do que abrir a boca e deixar os outros terem certeza disso”. Se cada um tivesse ela colada ao lado do computador, o mundo seria melhor.
Porque, além do silêncio valer ouro, ele é o melhor amigo e conselheiro.



MOTO

Naty Chabanenko para a revista Vogue.

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