PÉROLA

Ana Leal para a revista The President.

01 193307 copy-1.jpg

01 193448 copy-1.jpg

01 193685 copy-1.jpg



01 193466 copy-1.jpg

01 193532 copy-1.jpg

01 193260 copy-1.jpg



RAGING BULL

As fotos e a entrevista com Vitor Belfort, feitas para a revista GQ de março.

CF190342 copy.jpg

Vitor Belfort além de ser monolítico no seu aspecto físico é extremamente consistente em seus pensamentos. Eles parecem ter sido talhados na mesma pedra em que seu corpo foi moldado. Quando se expressa o faz de forma contida, porém com uma persistência e uma claridade compacta que beira o didático que ilustra, perfeitamente, seus pensamentos.
As palavras saem de sua boca escolhidas com a mesma precisão com que Vitor dispara seus golpes dentro do octagon, e formula suas ideias e conceitos com o mesmo fôlego e agilidade com que ele se esquiva das armadilhas do adversário. A diferença é que elas chegam aos ouvidos do interlocutor com uma clareza e um didatismo dignas de um pregador religioso, a calma de um monge tibetano e a certeira precisão de um “sniper” dos Navy Seal.
Casado com Joana Prado - mulher deslumbrante que já ocupou espaço preferencial nas fantasias de grande parte dos homens deste pais - hoje peça fundamental de seu equilíbrio emocional, e pai de dois filhos, Belfort é um homem aparentemente em paz, satisfeito consigo mesmo e focado o tempo todo em um único objetivo; entrar em um ringue e derrotar seu oponente, seja ele quem for, da maneira mais rápida possível.
A coragem e o destemor são pedras fundamentais desta religião que os combatentes do UFC praticam com a mesma intensidade com que se dedicam a fortalecer o corpo e o espírito. Tudo para alcançar um equilíbrio emocional que os permita controlar a força de seus músculos – e de seus impulsos – para aguentar estoicamente os socos de seus adversários, em lutas cada vez de maior audiência, e desferir o golpe definitivo no momento certo.
Entre um olho roxo, uma orelha amassada e uma sobrancelha aberta paira um sonho, na cabeça de Vitor Belfort o de tornar o UFC o esporte mais popular do Brasil. E isto, para ele, é uma possibilidade indiscutivelmente real.

JRD.- Seu primeiro mestre foi o Carlson Gracie. Por que você deixou de treinar com ele? Você chegou e falou: “Muito obrigado, mas não preciso mais de você”?
VB.- Ele não queria mais me treinar. Eu falava: “Carlson, a gente tem que treinar”. Ele: “Pode ir na academia que depois eu vou”. E ficava nesse lance. Ele começou a se envolver com outras coisas, parece que tinha perdido o desejo. Aí eu disse: “Para eu te pagar uma porcentagem, que é o nosso acordo, você tem que me treinar”. Comecei a achar injusto pagar por uma coisa que ele não estava fazendo. Todos os lutadores que ele tinha - naquela época eram muitos, digamos que o maior exército de lutadores era o do Carlson - ficaram contra mim. Eu era o único que estava lutando, em atividade, e os outros não estavam lutando porque não havia muitos eventos. Era uma questão de fidelidade comigo, entende? Tem de ser fiel ao meu trabalho. Se não está cumprindo sua parte, não vai trabalhar para mim. E assim nas empresas do Eike Batista, por exemplo. Se o cara não trabalhar, ele demite. No caso, a empresa sou eu. Sou o CEO e tenho de contratar pessoas capacitadas que podem me orientar.

Uma boa equipe é fundamental para um lutador hoje?
Sim, sempre foi. E minha visão de equipe é: compromisso, com objetivo e resultado. No meio disso tudo, você envolve diversos treinadores. Um lutador de MMA precisa de um treinador de jiu-jitsu; de um treinador de queda, que é o wrestling; de um treinador de strike (ataque), que é o boxe; e de um treinador de chute, que é o muay thai e o caratê. Precisa ainda de um preparador físico, um fisioterapeuta. Aí você escolhe um headcoach, que seria o treinador principal. Esse cara, na realidade, cria aquela ideia de “nós somos uma família, unha e carne!”. E existe hoje também o mental training.

O que é exatamente vem a ser o mental training?
É você se condicionar para tomar decisões, entendendo seus problemas. O mais importante do mental training é você se dar conta de que o passado é um cheque cancelado e o futuro é um cheque pré-datado. Tudo o que você tem está no presente. Uso todas as minhas coisas negativas e as transformo em coisas positivas para gerar algo bom no meu presente e que possa ser investido no meu futuro. Numa luta, existem milhões de coisas na minha cabeça, mas tenho que encontrar a minha paz. O mental training é lidar com tudo isso: as pessoas, a adrenalina, os seus medos, a sua insegurança, as dores da vida.

Imagino que o desaparecimento da sua irmã deve ser uma grande dor na sua vida. Como você lida com ela?
Sim, uma dor para mim e para minha família porque nós não sabemos realmente o que aconteceu. Nós não sabemos onde ela está, não a enterramos, não houve uma missa de sétimo dia, não tivemos nenhum tipo de conforto. Tivemos que aprender a lidar com isso. Eu olhava para os meus pais e pensava: “Bem, vocês, simplesmente, não têm mais uma filha”.

O que você acha que aconteceu?
Acho que foi um seqüestro relâmpago e desapareceram com o corpo.

Você acha, então, que ela está morta.
É o que acho. A probabilidade que me leva a pensar assim é muito maior do que a que me levaria a acreditar que ela está viva em uma ilha, que escolheu viajar. Não há como enganar o coração e a realidade. Agora, superar isso é uma decisão. Tem gente que faz de um quebra-mola uma montanha, e tem gente que faz de uma montanha um quebra-mola. Eu prefiro fazer da montanha um quebra-mola. Sei ser feliz até quando estou triste.

Você tem 23 títulos no mundo das lutas. Até quando vai a sua vida útil como lutador?
Pretendo lutar por mais uns cinco anos. Hoje falei para a Joana: “A hora em que eu não tiver mais vontade de acordar cedo, fazer dieta, me dedicar, dar o meu melhor, paro de lutar”. Quando morrer o meu desejo de estar ali, num combate justo, íntegro, acabou. Não poderei mais lutar. Não quero que nenhum fã pense que estou ali por dinheiro porque ele está me assistindo por prazer. Acho uma maldade um cara investir dez mil dólares em uma luta para me ver lutando por dinheiro. É uma falta de respeito.

Essa não é uma visão muito romântica do esporte, que hoje em dia é negócio?
Essa é a diferença do Neymar para os outros jogadores: ele ainda está jogando bola na várzea. A diferença entre o Pelé e outros profissionais do futebol é que o Pelé fazia por amor. Por isso ele é o Rei. Agora, uma coisa é você jogar futebol, “dar um migué” e ganhar um dinheiro. Outra coisa é lutar. Você não consegue lutar, tomar soco, chute na cara e sair de lá derrotado “dando um migué”.

Existe luta fácil?
O combate é uma guerra. E, se você está em uma guerra, nunca menospreze seu adversário. Confiança em demasia se transforma em arrogância e o orgulho é o início da queda. No ringue, eu preciso respeitar o meu adversário e a melhor forma de fazer isso é dando o meu melhor. Nós estamos entretendo milhões de pessoas, então naquele momento sou um artista, um músico, o pintor de um quadro. Minha arte é o nocaute.

Seu adversário é também seu inimigo?
Nunca. Porque inimigo só tenho um: Lúcifer. Ele tem um objetivo que é me destruir a qualquer momento e a qualquer preço. Tudo que é do mal é meu inimigo. Evil, Lúcifer, devil, o que for, whatever. Ele é meu inimigo. O resto é adversário.

Se não me engano, o UFC é o lugar onde eu já vi mais sangue espirrando. É o esporte mais violento do mundo hoje?
De jeito nenhum!

Então qual é o esporte mais violento de todos?
O futebol é mais violento que o MMA. O futebol americano, o hockey, o rugby, o ciclismo, todos estes são mais violentos.

Espera aí! Como assim? O ciclismo é mais violento que o MMA?
O esporte que mais morre gente no mundo é o ciclismo. Você está lá numa bicicleta a 100 quilômetros por hora. Violento é o que pode tirar sua vida.

Mas aí você está falando de perigo. Fórmula 1, por exemplo, é risco, não violência.
Se você procurar a definição de violência no dicionário, vai ver que é algo como “empregar força física contra alguém ou intimidar moralmente com crueldade”. Violência é um ato infringido contra o outro sem regra. O que eu faço não é violento porque tem regra. Pode ser agressivo. Mas é agressivo você pilotar um carro a 300 quilômetros por hora, ou andar em cima de uma bicicleta a 100.

Mas isso é perigoso.
Não, é agressivo.

Então, para deixar claro, você acha que o MMA não é violento?
Sim, eu acho que não é violento porque existem regras. Veja, uma falta no futebol é o quê? Fazer uma falta é uma violência. Porque o jogador faltoso está infringindo as regras, a falta não faz parte delas. Futebol é o esporte que mais tem falta. No futebol americano, por exemplo, aquelas entradas fulminantes podem ser feitas, fazem parte das regras. No hockey, o jogador tem o direito de brigar com o outro por dez segundos.

Vi uma foto sua depois da sua última luta e você estava...
Aquilo era só um olho inchado. No dia seguinte já estava normal.

Mas a porrada que você leva é um ato violento.
Não é violência porque estou preparado. Estou conivente, assinei um contrato, estou competindo com um adversário mediante aquelas regras. Há limites para seguir. Somos o único esporte de artes marciais que tem um plano de saúde. No UFC são 380 lutadores com plano de saúde. Imagina qual é a dificuldade de conseguir isso. Mas porque eles descolaram um plano de saúde? Porque existem regras claras e existem limites. As contusões que acontecem na luta são muito menos agressivas do que as que acontecem no ciclismo, na Fórmula 1, na Indy, porque nestes outros esportes se perdem vidas.

Há cinco anos você foi pego no doping. O que aconteceu?
Existe o doping que o atleta faz ilegalmente e é pego naquilo. No meu caso, estava tomando um negócio que não escondi de ninguém. Estava lá quando a comissão atlética me pediu a lista dos medicamentos que eu tomava e eles falaram: “Infelizmente, aqui nessa fórmula tem um produto que te ferrou”. Beleza. No meu caso, não era um doping que iria melhorar minha performance, pelo contrário. Era um produto que, em vez de ser increasing performance, era decreasing. Tanto que a minha punição foi pequena. Hoje, se eu tomar um antiinflamatório é doping. Na época, meu médico me passou as vitaminas que eu poderia tomar sem risco de doping, que eu poderia comprar em qualquer farmácia. E hoje tem muita coisa que é vendida no balcão de uma farmácia e é considerado doping. Posso tomar um Tylenol, mas Neosaldina não. É doping. Posso tomar café, mas se eu tomar efedrina 
é doping.

Você foi nocauteado por um chute espetacular do Anderson Silva no que foi chamada de a luta do século. Consegue descrever os segundos antes de cair?
Se conseguisse descrever os segundos antes do chute ele não teria me acertado. Aí é que está o reconhecimento da precisão. O momento de glória foi dele. E não caiu no colo dele, ele fez por merecer. Mas eu prossegui minha vida, consegui vitórias, e estou em pé de novo.

Como é ser nocauteado?
O lutador vive no limite porque a qualquer momento você pode ser nocauteado ou pode nocautear alguém. Se sou nocauteado, eu me levanto e procure melhorar. É como aquela música do Karate Kid novo, sabe?

Não.
Never say never [do ídolo teen Justin Bieber]. Nunca diga nunca. Essa palavra não existe para mim.

O que você sente depois de uma derrota como esta?
A primeira coisa que eu senti é o reconhecimento de que eu dei o meu melhor. Depois, que vacilei porque parei na luta. E aí vem a correção. Um lutador de verdade precisa reconhecer a vitória do adversário e falar: “Vou me levantar de novo e voltar ao meu caminho. A vida continua e eu continuo respirando”. As pessoas têm medo de perder, de fracassar. Eu não tenho medo de nada. Procuro reconhecer as minhas fraquezas o tempo todo e buscar formas de melhorar – “Ele foi melhor que eu naquela noite, me pegou e me derrubou? Beleza. Vou me levantar e ficar melhor”. Onde nós conhecemos a verdadeira personalidade das pessoas? Na hora da pressão e na hora da derrota.

Qual foi seu erro nessa luta com o Anderson?
Com o Anderson você não pode parar. Ele é um cara muito versátil. Parei o movimento de pernas e ele usou 
o chute. A estratégia dele foi muito bem aplicada.

Por que você disse que o Anderson é mascarado?
Eu não disse que ele é mascarado. Na pesagem ele entrou mascarado.

Mas foi porque você disse, nas entrevistas pré-luta, que ele era mascarado, não?
Aquilo foi uma idéia dele para tentar me intimidar. Mas é o seguinte: quando você fala de um erro meu não significa que está falando de mim. Se você falar de um erro meu não vou levar para o lado pessoal. Quando alguém leva para o pessoal é porque aquilo é verdade. Aí eu volto a falar: nós conhecemos a personalidade das pessoas na hora da pressão e na hora da derrota.

Quanto da pesagem é verdade e quanto é teatrinho? Porque desde o boxe existe uma tradição que tem que encarar o oponente, fazer cara feia.
Alguns fazem, outros não. É a encarada. São os gladiadores do terceiro milênio, como disse o Galvão Bueno. Não gosto de ficar cara a cara, mas estou ali, então não vou recuar. I will never back up, entendeu? Existe um respeito. Tem uns que desrespeitam, empurram. Anderson falou umas palavras muito feias, mas tenho certeza que ele se arrependeu. Ele respeitou a mim e à minha família, sempre foi muito bacana. Agora, no momento da pressão... Sei que foi uma estratégia que ele criou para entrar na minha mente.

E ele conseguiu. Você ficou nervoso ali.
Não fiquei nervoso.

Ele disse “tá f******, vou te encher de porrada”.
Não comi o alimento podre. Não falei em nenhum momento palavra feia para ele. Não o agredi verbalmente. Ouvi aquilo, mas saí com paz de espírito. Você pode me falar o que você quiser, mas essas palavras vão ficar com você. Ele podia estar lá usando aquela máscara, atuando, mas eu sei que por dentro ele é um cara bacana, um pai de família. Não estou sendo pago para fazer teatro, me preocupo muito com tudo que eu falo e faço. Procuro agir da maneira que vivo, para quando eu chegar em casa e meu filho perguntar: “Papai, o que você faz?”, eu poder responder: “Eu sou lutador. Vem cá ver meu treino, rapaz. Vem ver a pesagem do papai”. Eu não faço ou digo nada que possa envergonhar o meu filho.

Por que a popularidade do UFC no Brasil?
Porque existe vários Ayrton Sennas no UFC, atletas brasileiros que vivem no limite e são considerados os melhores do mundo naquele esporte. É um retrato fiel do povo brasileiro: cada um vem de uma classe social diferente, com valores e motivações diferentes, todos buscando a vitória honesta. A luta está gerando novas oportunidades para os brasileiros e, com isso, o esporte vai crescendo, os pais querem que os seus filhos sejam como os lutadores. Um ídolo procede de outro ídolo. É bacana você entender que vai ser a inspiração para a próxima geração.

Você acha que no Brasil o MMA pode se tornar mais popular que o futebol?
Acredito que meu esporte já é o número dois no meu país há anos. Tivemos alguma dificuldade para entrar em uma rede de televisão, mas conseguimos, e na TV Globo, a maior rede de televisão do Brasil. Tenho certeza que daqui a cinco anos seremos o líder de esporte no Brasil. Alguns fatores me levam a afirmar isso.

Quais?
O lutador brasileiro que está no UFC não dá migué, não depende de um clube, não precisa de dirigente, de promotor. É um esporte menos político e corrupto que o futebol porque é uma competição homem a homem, em que um ganha e o outro perde. A regra é muito mais simples de entender, como entretenimento é melhor de assistir, é um programa para a família no sentido de que não tem briga na platéia, não tem torcida organizada. A mulher pode ir a um evento de luta muito bem arrumada, não precisa deixar relógio e as jóias em casa, não vai haver risco. Infelizmente, o futebol virou um mercado de negócios. Como é que o cara joga com quatro meses de salário atrasado, como aconteceu com o Ronaldinho Gaúcho? No UFC, eles pagam na hora. Você sai da luta com o cheque na mão. Tem muita gente investindo no futebol sem cobrar dos dirigentes posturas dentro e fora de campo. O UFC está muito à frente disso tudo. É um evento que tem dinheiro e plataforma. O futebol está muito corrupto, perdeu o valor. O jogador fica barrigudo, não joga nada, mas também não se aposenta porque está ganhando um milhão por mês. E se está ganhando dinheiro sem merecer está lesando o clube e desrespeitando a torcida.

E por que que o brasileiro é bom no octógono.
O brasileiro não é só bom no octógono. O brasileiro é bom em tudo o que faz. O povo brasileiro é lutador. Ele tem que lutar porque é mais caro morar no Rio de Janeiro ou em São Paulo que em Nova York, porque o salário mínimo é realmente mínimo. Somos um povo aguerrido, queremos lutar por nossos direitos, pelos nossos sonhos, queremos conseguir e vencer. Para os lutadores brasileiros a vida se transfere para a luta.

A luta fez de você um homem rico?
Poderia ganhar mais do que ganhei, mas eu ganho bem. Esqueci o ditado…

“Ganho mais do que preciso e menos do mereço”?
Isso. Eu acho que a riqueza do homem não está só no lado financeiro ou nos investimentos, está naquilo que ele acha que é justo e correto.

Você mora em Las Vegas. Nunca entrou em um cassino para jogar?
Olha, conheço donos de cassino e uma vez perguntei para um deles: “Como que é esse lance, tem alguma armação?” Ele respondeu: “Olhe ao seu redor. O cassino nunca perde”. E eu não sou muito de jogar. Já brinquei, mas meu dinheiro é muito difícil de ganhar para ir embora assim. É uma diversão que gera tristeza. Para mim o divertido é pegar onda no Hawaii, gastar dinheiro com uma primeira classe, um bom restaurante, um bom vinho.

Você está casado há 14 anos com a Joana Prado, que foi um dos maiores símbolos sexuais da História deste país. Isso já te incomodou?
A Joana sempre foi uma mulher muito correta, muito digna. Ela sempre teve princípios e aproveitou o momento, nunca saiu do objetivo dela. É claro que se todos nós pudéssemos voltar atrás, faríamos muitas coisas diferentes, mas aí não seria nossa história de hoje. Como símbolo sexual, ela foi um furacão que passou, mas não se deixou influenciar por aquele momento, que hoje é passado. Ela era uma meninona e hoje se tornou para mim a mulher perfeita. Posso dizer que o maior sucesso da Joana é conseguir ser mãe de três filhos, ser uma mulher linda e maravilhosa, uma excelente esposa, cuida das crianças sem babá, da casa, me ajuda com os negócios. Um homem sem uma mulher, meu amigo, é um caos. A Joana é a estrutura da casa.

Qual sua maior vaidade?
Faço a sobrancelha, para não deixar junto. No dia a dia eu gosto de estar cheiroso, com um bom perfume. Mas a minha vaidade é pra mim, não é para os outros. Faço dieta para melhorar a minha performance e para eu ter uma qualidade de vida cada vez melhor. Minha vaidade começa em mim, reflete em mim e acaba em mim. Não gosto de cabelo no nariz, não gosto de cabelo no ouvido, acho feio.

Você usa cremes para cuidar da pele?
A Joana me ajuda muito nessa parte de creme e tal, de protetor solar, porque eu sou um pouco avoado, relaxado. É muito importante passar creme no corpo, porque minha pele é muito seca. Outro dia fui fazer massagem, adoro fazer acupuntura, gosto de tudo que me faz sentir bem.

Em 1998, você nocauteou o Wanderlei Silva em menos de um minuto.
Acho que foram 40 segundos.

Agora você e ele serão os treinadores do programa The Ultimate Fighter Brasil e, no final, vão se enfrentar de novo. Ele virou um parceiro seu?
Na realidade, nós sempre fomos companheiros de trabalho. Dependemos uns dos outros para conseguir nosso sustento.

Sem mágoas, depois de você encher ele de socos?
No nosso caso, o que acontece no octógono fica no octógono.

CF190414 copy.JPG



CINZA

Loris Kraemerh para a revista Cidade Jardim.

01 192810 copy.jpg

01 192915 copy.jpg

01 192868 copy.jpg



01 193010 copy.jpg

01 192646 copy.jpg

01 192627 copy.jpg



DESILUSÃO DE ÓTICA

Alguimas considerações minhas sobre o Photoshop publicadas, na edição deste domingo do caderno Aliás, no jornal O Estado de São Paulo.

Houve um tempo em que o pior insulto que um fotógrafo podia receber, ao mostrar uma imagem, era a de que ela estava "fora de foco". Apresentar uma foto que não estivesse nítida era um palavrão visual que marcava, por muito tempo, a falta de habilidade em manejar um equipamento e a insensibilidade em mostrar um pedaço de papel contendo alguma coisa nebulosa. Uma habilidade que, se supunha, um bom profissional deveria administrar com a mesma maestria com que um bom espadachim maneja seu sabre ou um bom escritor sua pena.

A tecnologia digital suprimiu a possibilidade de perder a foto decisiva por falta de prática na hora de focar, com a objetiva autofoco e uma avalanche de recursos - sejam eles embutidos nas câmeras, sejam na pós-produção - que permitem a qualquer um fotografar. E quando digo "qualquer um" é isso mesmo que quero dizer; qualquer pessoa pode produzir uma imagem, não é preciso nem prática nem habilidade para apertar o botão de qualquer aparelho e desse ato surgir uma imagem. Se ela é uma boa foto ou não, é outra historia. Mas esse não é o ponto. O ponto é que, hoje, a pior suspeita que se pode levantar sobre um fotógrafo é a de que ele manipulou sua imagem. O palavrão, hoje, se chama Photoshop. E o fotógrafo que se atrever a deixar rastros de seu uso, no seu trabalho, passa a ser visto como amador.

Devo lembrar, porém, que a manipulação de imagens não é novidade. Mesmo nos desenhos das paredes da caverna de Lascaux os animais têm uma das quatro patas levantada para dar a percepção de que estavam se movimentando pelas pradarias perigordianas.

O pintor francês Ingres imaginou a tela de sua autoria Napoleon I on his Imperial Trone (1806) como uma maneira de enaltecer o imperador e, na sequência, conseguir apoio oficial para futuros trabalhos. Infelizmente, Ingres caprichou tanto no retrato que Napoleão, mesmo com seu ego inflado e sonhos de conquistador a se perder no horizonte, rejeitou o trabalho, achando que o pintor tinha passado da conta. Um caso de puxa-saquismo artístico que custou caro a Ingres; nunca recebeu uma encomenda oficial.

Outro pintor, o inglês John Singer Sargent, caiu em desgraça entre a alta sociedade da capital francesa depois de apresentar o retrato de Amelie Gautrau, o famoso Madame X, no Salão de Paris em 1884. O escândalo foi provocado pelo fato de uma das alças do vestido de madame Gautrau aparecer, na tela, displicentemente caída. O escândalo "deixou o artista pasmado e a modelo banhada em lágrimas". E o que era para ser o ápice de uma ascensão social anunciada - a senhora Gautrau era conhecida pela excelência de suas roupas e sua beleza, e imaginava que aquela tela a tornaria o talk of the town parisiense - se transformou, no século 19, em um exemplo de crash and burn digno do mercado de celebridades de hoje. Sargent refez o quadro e, na tela que pode ser contemplada no Museu de Arte Metropoliano de Nova York, duas alças - finíssimas, é verdade - cobrem os ombros de madame Gautrau.

Cair em desgraça era o que levava os dirigentes do Partido Comunista russo, ou do chinês, a desaparecer, como por milagre, das fotos oficiais depois de certo tempo. Na medida em que os camaradas iam entrando em declínio político, as caras deles sumiam das fotos. O fenômeno de supressão da memória era feito pelos retocadores que, com um pincel e um estilete, seguiam os caprichos históricos de Stalin ou Mao Tsé-tung .

A tecnologia digital, além de facilitar o ato de fotografar, tem de compensar de alguma maneira a quantidade de imagens erradas que são jogadas para o ar, por segundo, no mundo. Para isso existem mais de 80 ferramentas e plug ins dentro do Photoshop. Com elas você pode retocar uma imagem, substituindo uma área por outra, ou copiar um pedaço da superfície retratada por outra. Ou, ainda, pode diminuir, e aumentar, partes do corpo, ou alterar o formato das roupas vestidas. Não consigo imaginar aonde Méliès poderia ter chegado se tivesse tido acesso na sua época a alguma coisa parecida. Mas posso contemplar, um dia sim, outro também, o que são capazes de fazer mentes sem talento no acabamento das imagens atuais.

A ideia por trás do Photoshop não é a otimização da mentira, mas melhorar a luz e atenuar eventuais condições adversas em que a foto tiver sido feita. No aplicativo está reunido todo o conhecimento necessário para que as pessoas, os lugares, os objetos saiam bem na foto, o mesmo conhecimento que por muitos anos foi dominado por poucos e agora está ao alcance de qualquer um. Não podemos esquecer que a Playboy foi lançada em 1953 e as mulheres dentro das páginas dela sempre pareceram, apesar de quererem ser as garotas da vizinhança, perfeitas.

Mas, assim como o hábito não faz o monge, a ferramenta não faz o mecânico. Uma boa imagem não é conseguida a partir de instrumentos de aperfeiçoamento, e sim em função de um bom equipamento e de uma boa luz. O uso do programa que corrige os erros de português do Word, que estou usando neste momento, não implica que o texto será melhor ou pior, apenas mais legível.

As aparências podem enganar, mas não durante muito tempo. Um sorriso - verdadeiro Photoshop da simpatia estampada no rosto - só convence se as intenções são verdadeiras. O mesmo se pode dizer de uma foto. E os exageros das imagens maltratadas afundam como a propaganda enganosa que tentam empurrar através da retina dos consumidores.

A manipulação de imagens, não se enganem os puristas, não é nenhuma novidade. A novidade é o espanto que essa manipulação possa provocar nas pessoas e a suposta vitimização do consumidor que, para algumas mentes legislativas, parece ser incapaz de analisar sozinho as informações que recebe. Como se tudo tivesse de ser mastigado, tirando a possibilidade de discernir o certo do errado e de se supor a ausência de uma inteligência própria no indivíduo, que funcionaria melhor quando substituída por uma coletiva, em que uns poucos dizem, e decidem, o que é bom para todos. Daí para a infantilização das pessoas, e que elas sejam tratadas como crianças, é um passo.

A propaganda através de imagens poderá ser enganosa, com ou sem Photoshop, porque a honestidade é um aplicativo mental que depende de cada um. Ninguém altera a imagem do frasco do produto, que vai ser encontrado fisicamente no supermercado ou no balcão de vendas; o que se extrapola é o tamanho do sonho, o tamanho do intangível.

Quem quiser burlar o próximo o fará como sempre foi feito, com lei ou sem lei. Cabe uma outra lei, a do mercado, colocar o enganador em seu lugar.



ÁRVORES

A coluna deste mes na revista Trip.

"Qualquer probelema pode pedir resarcimento depois".
O funcionário da Eletropaulo foi gentil. Tinha acabado de retirar um pequeno galho pendurado entre os fios de alta-tensão que, fazia vários dias, estava suspenso, a poucos metros acima de nossas cabeças, na calçada em frente a minha casa. A frase do título era o encerramento de uma conversa na qual tentei explicar para ele que aquele galho não era o problema. O verdadeiro problema – ameaçador como uma espada de Dâmocles (1) – é uma imensa árvore, do outro lado da rua, inclinada vertiginosamente sobre um eixo imaginário inexistente e que a força da gravidade um dia fará tombar sobre a rua, os carros e, inevitavelmente, sobre minha casa.
Essa frase foi o ponto culminante de uma pequena comédia da vida privada que já dura três anos. O primeiro SAC (Sistema de Atendimento ao Cidadão) a gente não esquece. Depois de ter feito uma reclamação por telefone, a respeito do estado da árvore, recebi rapidamente uma resposta por e-mail em setembro. Setembro de 2009. Achei que a coisa seria surpreendentemente rápida. Engano meu. Esse foi o primeiro de vários telefonemas e protocolos, mas descobri com o passar dos meses que os SAC têm prazo de validade; se não são resolvidos em certo espaço de tempo eles desaparecem nas dobras do esquecimento do labirinto kafkiano da burocracia. Depois de alguns meses os telefonemas para a subprefeitura se tornaram inúteis e os funcionários, ao reconhecer a voz, simplesmente desapareciam do outro lado da linha. Ou, num ataque de sinceridade, diziam que não iam fazer nada.
Imagino que, como neste caso o poder público não pode ter nenhum ganho real – no máximo um ou dois votos no dia da eleição – , vou ter que conviver com a esperança de que ninguém da minha família, nenhum vizinho ou transeunte esteja no lugar errado no momento em que a árvore fatalmente cair. Os galhos podres espalhados pela calçada a cada tempestade forte me dão a certeza de que a queda será uma triste realidade.
A prefeitura de São Paulo se preocupa com as calçadas e a partir deste ano quem não cuidar delas direitinho será multado. Curioso, a calçada não é minha, não consta da metragem do meu IPTU e quem menos se utiliza dessa parte da rua sou eu mesmo. Mas, enfim, não me importo em conservá-la se, em troco, o poder público fizer sua parte e proteger a integridade física dos meus vizinhos e da minha família. E que não tenhamos de sair correndo atrás do prejuízo, no dia em que a árvore tombar (2).
Aqui na vida privada, ao contrário da pública, se aprende desde sempre que prevenir é muito melhor do que remediar. E que “pedir ressarcimento depois” é de uma falta de seriedade insuportável.

(1) A história de Dâmocles é contada por Cícero e pela Wikipédia. Esta última diz assim: “Dâmocles era um cortesão bastante bajulador na corte do tirano Dionísio, de Siracusa. Ele dizia que, como um grande homem de poder e autoridade, Dionísio era verdadeiramente afortunado. Ofereceu-se para trocar de lugar com Dâmocles por um dia, para que ele também pudesse sentir o gosto de toda essa sorte, sendo servido em ouro e prata, atendido por rapazes de extraordinária beleza, servido com as melhores comidas. No meio de todo o luxo, Dionísio ordenou que uma espada fosse pendurada sobre o pescoço de Dâmocles, presa apenas por um fio de rabo de cavalo. Ao ver a espada afiada suspensa diretamente sobre sua cabeça, perdeu o interesse pela excelente comida e pelos belos rapazes e abdicou de seu posto, dizendo que não queria mais ser tão afortunado”.
(2) Espero que a prefeitura não tenha um dia a ideia de tornar o cidadão responsável pelos buracos na rua em frente a sua casa também. Essa sim uma ideia verdadeiramente diabólica que livraria o poder público de mais uma responsabilidade.




abril 2016
março 2016
fevereiro 2016
janeiro 2016
dezembro 2015
novembro 2015
outubro 2015
setembro 2015
agosto 2015
junho 2015
maio 2015
abril 2015
março 2015
fevereiro 2015
janeiro 2015
dezembro 2014
novembro 2014
outubro 2014
setembro 2014
agosto 2014
julho 2014
junho 2014
maio 2014
abril 2014
março 2014
fevereiro 2014
janeiro 2014
dezembro 2013
novembro 2013
outubro 2013
setembro 2013
agosto 2013
julho 2013
junho 2013
maio 2013
abril 2013
março 2013
fevereiro 2013
janeiro 2013
dezembro 2012
novembro 2012
outubro 2012
setembro 2012
agosto 2012
julho 2012
junho 2012
maio 2012
abril 2012
março 2012
fevereiro 2012
janeiro 2012
dezembro 2011
novembro 2011
outubro 2011
setembro 2011
agosto 2011
julho 2011
junho 2011
maio 2011
abril 2011
março 2011
fevereiro 2011
janeiro 2011
dezembro 2010
novembro 2010
outubro 2010
setembro 2010
agosto 2010
julho 2010
junho 2010
maio 2010
abril 2010
março 2010
fevereiro 2010
janeiro 2010
dezembro 2009
novembro 2009
outubro 2009
setembro 2009
agosto 2009
julho 2009
junho 2009
maio 2009
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
agosto 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
março 2005
fevereiro 2005
janeiro 2005
dezembro 2004
novembro 2004
outubro 2004
setembro 2004
agosto 2004
julho 2004
junho 2004


Receba um aviso quando
tiver novidades no site,
basta colocar seu e-mail
no box abaixo e enviar.