PONTE

"A Ponte Pensil de São Paulo", texto de Fernando Paiva e fotos de J.R.Duran para a Rev.Nacional #1

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Eu estava vindo de moto pela Marginal quando passei embaixo da ponte e então me lembrei, para meu desespero, que estava completamente atrasado para entregar este maldito texto para a Revista Nacional, bendita Revista Nacional, finalmente uma publicação de novas idéias que respeita a velha ortografia e manda a “nova” às favas, pois ideia, vou te contar, é de arder, ideia é joia, bitcho, coisa de português mesmo, mas enquanto acelerava a Ducati velha de guerra pensava eu com meus botões, àquela altura completamente desabotoados pelo vento: que diabos vou escrever sobre pontes?, eu que de ponte nada entendo, nem ao menos tenho uma na boca, ponte é coisa complicada, “ou não”, como diria Caetano, e vinha lá eu matutando no que escrever, é engraçado, mas quando a gente anda de moto, me disse alguém outro dia, a gente pensa mais do que quando está de carro, será verdade?, deve ser para encher o capacete, já que ali não tem rádio nem CD nem nada, e capacete vazio é pior que cabeça idem, verdadeira oficina do diabo, vôte!, de qualquer modo no trânsito louco desta cidade é sempre bom pensar duas vezes antes de sair de moto, mas como a leitora e o leitor devem estar percebendo, ainda não falei nicas sobre ponte, tema deste ensaio fotográfico, estou aqui nessa enrolation braba, e imagino a cara do Papito (o acima assinado e o dono desta revista costumam se tratar mutuamente por Papito, só para putear um ao outro, como dizem os gaúchos), imagino a cara do Papito ao ler este imbróglio que deveria falar de ponte, nem que fosse do Pontes de Miranda, renomado jurista, o que me remete a algumas pontes da minha vida, a primeira delas sobre o rio Grande, na divisa de São Paulo com Minas, Porto Colômbia do lado de cá, Planura – não é um nome maravilhosamente mineiro? – do lado de lá, o rio Grande mais velho de guerra que a Ducati, rio onde meus dois avôs pescavam magníficos dourados e jaús de até 60 quilos, ia dizer 80, mas aí a querida leitora e o querido leitor poderiam dizer que é história de pescador, mas voltando ao rio Grande, onde meu avô materno, que era rico, teve uma ilha só dele, com campo de aviação e tudo, só para ninguém lhe encher o saco na hora de pescar, mandou fazer uma bela casa toda avarandada (a gente dizia era alpendre) com uns seis quartos, contratou um bugre velho como caseiro e cozinheiro, o seu Gumercindo, comprou duas canoas de alumínio, dois motores Evinrude de 30 HP, e ai de quem se aproximasse do refúgio do velho Joaquim sem ser convidado, o mínimo que levava era tiro de carabina 44 de advertência, o portuga trasmontano era fogo, e foi desse mesmo rio que meu avô paterno, o velho Estêvão (com circunflexo e til), que sempre foi pobre de marré, marré, marré tirou seu sustento como pescador profissional durante anos a fio, coitado, e nas margens do qual meu pai quando moleque caçava paca, tatu, cotia não, tenho foto para provar, isso na época em que ainda não havia ponte sobre o rio Grande e tudo atravessava de balsa: gado, jardineiras cheias de capiaus, tropa de burro, diamantes contrabandeados do garimpo Bandeira, mulheres que vinham do Triângulo Mineiro para vender seus peludos triângulos não necessariamente mineiros nos bordéis de Barretos, criminoso fugido, nego que matava outro do lado de cá ou de lá e ia ou vinha igualmente buscar guarida do lado de lá ou de cá, enfim, tinha gente que preferia atravessar de canoa, o que deu origem até a uma musiquinha muito conhecida no Barretão, cantada pelo Ditinho, grande violeiro, o Matinas que me desminta se não for verdade, pois a tal música falava da falta que uma ponte fazia naquele sertão brabo, e dizia algo como “canoeiro, anda depressa que eu preciso atravessar; tu não vê que eu tou com pressa, que eu também quero embarcar; eu deixei do outro lado meu cavalo alazão; canoeiro, anda depressa, tu me mata de aflição”, e aí a musiquinha acelerava e lá vinha o refrão “hoje tem festa em Barretos, com foguete, procissão; padre Primo me lembrou: ‘Tu não faltes pro leilão’; eu já dei minha palavra, eu não faço feio não; arrespeita, canoeiro, a palavra de um peão”, naquele tempo peão tinha palavra, e se canoeiro não “arrespeitasse” a bicha, o bicho tirava o cospe-fogo da guaiaca e mostrava com quantos paus se fazia uma canoa, mas, enfim, quando nasci o rio Grande já tinha uma ponte, a primeira da minha vida, depois vieram outras, me lembro do medo que sentia quando, sentado na frente da Lambreta de meu pai, atravessávamos umas pontezinhas de madeira nos arredores da cidade, eu olhava para os dois lados e me dava até gastura, ao mesmo tempo em que não conseguia fechar os olhos, acho que foi aí que comecei a me ligar nesse lance de moto e de velocidade, de acelerar, velocidade é bom demais da conta, o Conrad tem uma frase maravilhosa naquela novela Tufão, em que descreve o próprio, estou sem o livro aqui, de modo que cito de cabeça, “era algo formidável e veloz, como o súbito estilhaçar de um frasco contendo toda a cólera do mundo”, putz, essa frase é duca, acho que define à perfeição um tufão em alto-mar, nunca presenciei um, mas imagino, e voltando a pontes e velocidades, no bairro em que eu morava em Barretos, na Primavera, bem longe do centro, descendo a rua 20 de bicicleta na contra-mão, certa vez errei o rumo da ponte e fui parar dentro d’água de bicicleta e tudo, que vergonha, meu Deus, a bicicleta novinha em folha, uma Monark Brasiliana 64, branca e caramelo, presente de Natal, eu molhado que nem um pinto, sofri o diabo para sair do “corgo”, cheguei em casa todo ralado, não me lembro se levei uma surra ou não, mas devo ter levado, eu e meus irmãos éramos o cão chupando manga na encruzilhada, nossa diversão básica era brincar de pegar escorpiões vivos e botar numa garrafa verde de boca estreita e depois jogar álcool nos bichos, putz, parece até cena de filme do velho Peckinpah, mas meu irmão Tussa, minha irmã Mônica e eu cansamos de pegar escorpião e fazer isso, minha mãe – coitada da dona Jeni! – quase tinha um treco, e o velho Paiva chegava em casa, se informava do boletim do dia e sentava o relho na gente, mas enfim, cada um tem a infância que merece, e na adolescência comecei a cruzar a velha ponte do rio Grande rumo ao norte de Goiás, para a fazenda do meu avô em Dianópolis, fazenda Chapadinha, um lugar maravilhoso, cheio de peixe e de bicho, ali na barra do rio Manuel Alves da Natividade com o Manuel Alvinho, a gente adorava ir pra lá, naquela época ainda não tinha o estado de Tocantins, só o rio, que aliás também não tinha ponte, a gente atravessava ali no vilarejo do Peixe numa balsa de carretilha, o cabo de aço amarrado em duas figueiras enormes, magníficas e frondosas, de ambos os lados do rio, e naquele fim de mundo, década de 70, tinha muita ponte perigosa, algumas se resumiam a dois cochos (daqueles de botar sal pra boi) paralelos, o riozinho lá embaixo, o motorista tinha de ser bom de olho e de direção, carecia encaixar as rodas dianteiras e as traseiras da camionete direitinho dentro dos cochos, senão babau, e tinha dia que a gente atravessava aquilo de noite, com chuva, cruiz credo!, imagina se nego erra o rumo da pinguela, porque aquilo não era ponte, era mesmo pinguela, e aí a gente começa a correr mundo, correr perigo, e vai descobrindo pontes em outras freguesias, como as da Holanda, Deus meu, como tem ponte bonita naquele lugar!, pontes velhas, pontes de pedra, pontes lindíssimas como as feitas pelos romanos em Ütrecht, exemplos vivos da antiga arte da cantaria, cantarya, palavra velha de 500 anos, igualzinha à ponte que a empreiteira do meu tio Zóguinho, a Concisa, tentou derrubar em Recife nos anos 70, uma ponte da época de Maurício de Nassau, dos tempos de dom João Charuto, como se diz no Rio, uma ponte do século 17, e lá vai a empreiteira paulistana colocar dinamite na porra da ponte pernambucana, o povo todo em volta, cubando a cena, cheio de curiosidade, a Globo chamada para mostrar a explosão, e fogo, e BUM!, e a fumaça sobe, a caliça enche o ar, ninguém vê mais nada, instantes de tensão, o povo olhando, a fumaça vai baixando, a Globo transmitindo ao vivo e... putaquipariu, não é que a ponte continua lá?, quié quié isso, torcida brasileira!, Maurício de Nassau 1 x 0 Concisa, tá pensando que é mole derrubar ponte velha, seu Barnabé?, o povo todo se regalando de rir, intimamente vingado contra aquela tentativa escrota de implodir a história, coisa tão comum no Bananão, principalmente durante a ditadura militar, quando nego derrubava o que bem queria e quem quisesse reclamar que se dirigisse à Cúria, à casa do senhor bispo, de preferência à residência episcopal de dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, ali em Higienópolis, mas resumo da ópera pernambucana: tiveram de dobrar a carga de explosivos para finalmente mandar pelos ares as pedras tão bem cortadas e encaixadas que os holandeses colocaram lá sob a forma de ponte, e aí não posso deixar de mencionar outra ponte, esta sobre o Araguaia, unindo Santa Rita do Araguaia do lado goiano a Alto Araguaia do lado de Mato Grosso, olha, se decepção matasse eu era um cabra morto, porque depois de ler todos os livros do Zé Mauro de Vasconcellos e do Willy Aureli sobre o Araguaia, com suas praias alvas, a natureza exuberante, a largura imensa, a fauna e a flora, e piriri-pororó, me preparei para entrar em terras mato-grossenses pela primeira vez, imaginando uma espécie de Golden Gate cabocla, o Araguaia velho de guerra lá embaixo, mas acontece que o rio nasce ali perto, e a Kombi passou acelerada sobre a tal ponte, mal deu para enxergar o rio, de tão pequeno, tão estreito, pouco maior que o “corgo” onde eu havia despencado na infância, fiquei decepcionadíssimo, mas eu era jovem e aprendi que toda vez que o adjetivo “alto” aparece ao lado de nome de rio significa que o rio é estreito, que fica perto da nascente, bom mesmo é o baixo Amazonas, aquele mundaréu de água, depois vim a conhecer melhor o Araguaia em São Félix, quando decidi visitar dom Pedro Casaldáliga, e aí sim, ali na ilha do Bananal o Araguaia mostra a que veio, largo, belo e ainda selvagem naquele 1974, hoje não sei mais, faz tempo que não ando pelo sertão, aliás sertão mesmo, me dizem, só em Roraima e olhe lá, porque o resto virou soja, seu Conselheiro, quem disse que o sertão ia virar mar errou, porque virou é soja, ou cana-de-açúcar, ou pasto, a madame escolhe, mas como nem só de sertão vive o homem, não posso deixar de mencionar a ponte sobre o rio Salzach, na Áustria, numa memorável viagem que Papito e eu fizemos para a revista Daslu, que começou e terminou na fábrica da Porsche em Stuttgart, a idéia era passar quatro dias acelerando pelas auto-estradas e parando nos melhores restaurantes e hotéis, que coisa mais chata, me deu até saudade das minhas andanças por Goiás, andando de Kombi e comendo feijão amanhecido com melancia aguada, mas enfim, o Papito ao volante do Porsche Targa, o nosso “Laranjinha”, uma cor horrível para um carro tão lindo, eu no banco do passageiro, Papito acelerando a bagaça a 248 quilômetros por hora, velocímetro digital é bom por isso, a gente fotografa, mata a cobra e mostra o pau, mas aí a gente descendo aquele ladeirão imenso logo depois da fronteira com a Alemanha, o Porsche voando baixo, a ponte sobre o rio Salzach chegando, o carro a milhão, e dá-lhe Danúbio Azul com o velho Von Karajan regendo a Filarmônica de Viena, eta vida boa, meu Deus!, passada a ponte Salzburgo estava logo ali, a terra do velho Mozart, o fantasma do velho Salieri rondando aquelas muralhas... mas acho que já falei demais, e até que escrever 11.667 caracteres mencionando apenas uma vez a óbvia ponte do rio Kwai não é tarefa tão difícil assim, né mesmo, seu Samuel?
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Fernando Paiva é jornalista. Diretor da Custom Editora.

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GG

O texto de Otávio Rodrigues e a foto de Gilberto Gil. Publicados na Rev.Nacional #1.

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Até os nove anos, era o menino que vivia com um tambor e uma corneta pela casa e o quintal. Nos dias de festa, quando a pequena Ituaçu acordava com uma das duas filarmônicas subindo a rua, Beto ficava esperando no portão. Os músicos, compadres do dr. Gil, sabiam que o filho dele logo ali sairia correndo com algum instrumento na mão, acompanhando direitinho o ritmo. Só durante um trecho, porque não podia ir longe!
Mas a música vinha até ele. A mãe sempre espiava o moleque na sala quietinho, muito concentrado, ouvindo o rádio ou o serviço público de alto-falantes. Em 1951, quando mudou pra Salvador, porque lá no interior não tinha ginásio, pediu um acordeon de presente. Estava na moda. Dona Claudina falou: “Olha, por que não vai para uma escola de música? Vai estudar acordeon!”. E ele foi. O professor era um espanhol, um médico chamado José Benito Colmenero, que na época dava aulas em seu consultório! Só meses depois, abriria a Academia de Acordeon Regina, nos altos da Sorveteria Primavera, praça do Relógio de São Pedro.
Lá pelos 17 anos é que Beto comprou o primeiro violão, estimulado pela bossa nova. Autodidata, recorreu ao Método Garoto, ao Método Bandeirante, e só fazia estudar. Não se considera um virtuose. “Foram, sim, anos e anos de prática, de gosto, permanência com o instrumento ali, constante, horas e horas tocando.” Teve mesmo de reconhecer as limitações. “Eu não podia fazer tudo que queria, não tinha talento pra determinados usos do instrumento e tipos de música.” E aí desenvolveu um estilo próprio, alternativo, que deu vazão à sua fantasia criativa. “Um estilo exigente, digamos assim, mas para mim mesmo. Fui criando uma forma pessoal de erudição.”
O tempo passou e o jovem talentoso virou Gilberto Gil. Casou e teve filhos (várias vezes), tornou-se ídolo da música popular brasileira. Cantor e compositor genial, habilíssimo nas cordas, continua rodando o mundo com ideias que transpõem os limites do país e da própria música. Foi candidato a prefeito em Salvador, depois eleito vereador (enigmáticos 11.111 votos), então ministro da Cultura. É uma voz respeitada quando se discute meio ambiente, folclore, cultura digital, espiritualidade, conjuntura política, drogas, educação – não há assunto que lhe assuste ou não lhe diga respeito. Ourives com as palavras, entrega-se a cada tema considerando sempre os aspectos possíveis e também os imagináveis. Aos 67 anos, fora do ministério, está se dedicando mais à família, à composição e aos shows. Foi visto na Conferência do Clima em Copenhague, depois de uma turnê pela Europa ao lado dos filhos e de Jaques Morelenbaum.
E o dr. Colmenero? Que lembranças teria guardado de seu jovem aprendiz? O que observava no artista?
Há cerca de três anos, Gil teve um encontro casual com ele em Salvador. Era então alguém na casa dos noventa anos, mas ainda bem pimpão. Conversaram rápido sobre o tempo, as famílias, não trocaram contatos. Salvador é uma cidade em transformação, e no Relógio de São Pedro, a Academia Regina e quase todo o antigo comércio já se foi. Ninguém sabia do paradeiro do médico e professor.
Uma pista surgiu, trazendo também um acréscimo chamativo. Dr. Colmenero havia escrito o prefácio de um livro do Mestre Pastinha (1889-1981), ninguém menos que o difusor do capoeira angola no Brasil, um ícone da cultura afro-baiana. Gildo Alfinete, capoeirista das antigas, discípulo e amigo pessoal de Pastinha, conta que o médico frequentava o lugar, gingava que nem negão, era muito próximo do velho mestre da angola.
Poucos dias depois, antes mesmo que fosse possível combinar uma entrevista, dr. Colmenero faleceu, levando com ele as impressões dessa conexão improvável, que colocou um médico espanhol, conhecedor dos segredos de um renomado preto velho da Bahia, como iniciador musical de Gilberto Gil. Se fosse ficção, não ficaria convincente.
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Otávio Rodrigues é jornalista e editor, está escrevendo a biografia de Gilberto Gil para a editora Nova Fronteira.



SP/SA

Ensaio fotográfico, e texto de Leão Serva, publicados na Rev.Nacional #1.

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Gênesis 13:14 Levanta agora os teus olhos, e olha desde o lugar onde estás, para o lado do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente;
15 Porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre.
16 E farei a tua descendência como o pó da terra; de maneira que se alguém puder contar o pó da terra, também a tua descendência será contada.

A grandeza da cidade de São Paulo, por qualquer ângulo que se escolha, sugere o que disse o Senhor a Abrão. “Para o norte, e sul, e oriente, e ocidente”, nesta terra imensamente rica, plena de perspectivas para tanta gente, para qualquer lado que se olhe há profusão de casas e casebres, avenidas e ruas repletas de veículos, milhões de pessoas como em um formigueiro, ou “como o pó da terra”.
Tudo é muito, todos os números são superlativos... A sensação imediata é de uma cidade é inviável, ingovernável. Ao primeiro sentimento, de opressão, segue-se outro, quase religioso: é preciso ter fé para constatar que a metrópole funciona, apesar de todos os desafios; é preciso ter a fé de um apóstolo para crer que as coisas podem melhorar. O nome da cidade parece fazer sentido.
Para além da primeira impressão, a realidade confirma a crença dos que vêm à cidade em busca de realização. A capital paulista acolhe e dá oportunidades sem opor distinção: negros e alvi-negros, judeus e tricolores, árabes e vegetarianos, muçulmanos e médicos, engenheiros e bessarabianos, asiáticos e católicos, vindos de qualquer canto do planeta, todos se dão bem e encontram a mesma generosidade paulistana.
Um sinal de como essa imagem de terra prometida pode ser justa é a intensa mobilidade social que a cidade permite. Em São Paulo, um imigrante criador de porcos se torna um dos homens mais ricos do mundo; um flagelado nordestino fugido da seca em pau-de-arara se torna presidente da República; um filho de feirante se torna governador do Estado. São Paulo dá sentido à frase de Oswaldo Cruz, “nada resiste ao trabalho”.
Para trabalhar, na eterna busca de oportunidades e do pão de cada dia, movimenta-se por São Paulo uma população semelhante à do Uruguai, à de Portugal. É apaixonante, é comovente o espetáculo das multidões que se revezam pelas estações de Metrô, desde o romper do dia: milhares de homens e mulheres de roupa limpa, cabelos ainda molhados, passadas decididas rumo ao trabalho. Ao anoitecer, a movimentação se repete, agora no retorno à casa.
À noite, a visão da cidade, do ar, deixa a impressão de que há mais carros do que gente, e quase todos os veículos parecem estar parados em fila. Essa impressão se confirma, nos rushes do amanhecer e do anoitecer, quando se observa que as pessoas, a pé, vão mais rapidamente que os veículos.
Torna-se surpreendente, então, a velocidade com que o dinheiro circula e as mercadorias entram e saem do comércio paulistano. Muito antes da internet, os bancos brasileiros já realizavam a maior parte de suas transações de forma eletrônica, para compensar a inflação vertiginosa que fulminava o dinheiro de quem não fosse rápido. Foi-se a inflação, com o Plano Real, ficou um dos mais automatizados sistemas financeiros do mundo. De São Paulo saem softwares usados em bancos ao redor da terra, reafirmando o poder da grana que ergue e destrói coisas belas, como disse o poeta de Sampa.
Em São Paulo é assim: tudo é obra humana. Os pontos geográficos e as ondulações foram todas cobertas pela ocupação e pela obra humana. Hoje, quando se olha o “espigão da Paulista”, o que se vê é a ondulação do cume dos prédios formando um horizonte artificial, como os jardins suspensos da Babilônia. O mesmo ocorre com a maior parte dos rios e córregos que cortavam a cidade, e foram canalizados.
Mas tudo que o homem fez não conseguiu calar a natureza, que regularmente dá mostras de sua força indomável: o calor do verão está cada vez mais forte; a garoa do inverno deixou de existir, mas as noites e madrugadas frias pedem agasalho durante o ano quase todo; as águas de março podem ocorrer em qualquer mês, muitas vezes com uma potência amazônica.
De todas as sensações que brotam diante da imensidão de São Paulo, a mais forte é a de, sensação de ser um grão como no “pó da terra”. Em São Paulo, ninguém é realmente alguém, todos os ninguéns ajudam a construir e manter em ordem o que parece impossível.
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Leão Serva é jornalista e escritor. Foi assessor de imprensa da Prefeitura de São Paulo. Autor de "Cidade Limpa, O Projeto que Mudou a Cara de S. Paulo" (Clio Editora).

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DUAS

Duas capas, revistas e públicos diferentes. O mesmo fotógrafo.

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PAÇOCA

Os fotos, e o texto de Luiz Toledo, que com o título da "Paçoca" formam uma das matérias publicadas na Rev.Nacional #1.

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Como vai, como vai, como vai???
Se você respondeu:
Tudo bem, muito bem, bem, bem!!!,
vamos selar este encontro com um abraço – somos contemporâneos e, a partir de agora, cúmplices.
Que se faça a mágica: com gosto de bolinho de chuva, açúcar e canela na boca, deixemos este lugar onde somos pais, tios e, alguns, avós e visitemos aquele outro, ainda nosso, onde éramos filhos, sobrinhos e netos.
Mais tarde virá aquele molequinho antipático com pijaminha e vela na mão nos mandando dormir: Tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar. Um bom sono pra você e um alegre despertar!
Vai dormir você, pentelho! – pensávamos, mas íamos.
Ridi, Pagliaccio... Quando minha avó morreu, tocava essa ópera na casa ou no vizinho. Ela já estava velhinha, mas para os italianos morrer não faz parte da vida. Assim como a alegria, vive-se a tristeza intensamente. Que dia aquele! Ridi, Pagliaccio ficou catalogada no meu arquivo como uma marcha fúnebre.
Reouvi a ópera numa cena dos Intocáveis: Al Capone chorava copiosamente no seu camarote do teatro, assistindo à ópera.
Cenas depois, ele massacrava um dos membros da famiglia com um taco de beisebol. Não me lembro do motivo, mas, se a vítima teve algo a ver com o spaghetti não ter ficado “al dente”, foi merecido – alguns delitos exigem punição grave. Na minha família – que pelo menos na mesa estava mais para Al Capone do que para Eliot Ness – vi alguns domingos terminarem quase que tragicamente por causa do “al dente”.
Felizmente vivemos no país do futebol.
Depois do almoço ou no fim da tarde – não importa, o almoço aos domingos na casa de minha avó ia das 9 da manhã às 9 da noite – saíamos com nosso tio. Ele era alto, forte, usava terno cáqui, lutava boxe, tinha uma porrada de esquerda famosa, histórias de caçadas no Mato Grosso, dois canivetes, enfim, era um deus (alguns de nós também sabiam: ele era o Papai Noel).
Resolvida a briga de quem iria na janela, subíamos a bordo de um Simca Chambord, que ele chamava de La Barca (dicen que la distancia es en olvido. Pero yo no concibo esta razon), e zarpávamos: Parque Xangai, cinema no centro, Jockey Club ou – como ele anunciava – ao maior espetáculo da Terra, o circo.
O domador, preferido dele, tinha o nosso respeito invejoso. Os trapezistas, nossa admiração, esse medo branco. O mágico, nosso fascínio incrédulo.
E os palhaços, nossa furiosa alegria de viver. Eles nos tinham.
Depois do espetáculo, invariavelmente, visitávamos os bastidores do circo, os trailers, as jaulas, a mulher de quem vimos a calcinha quando ficou em pé no cavalo, impressionantes cocôs de elefante e, o mais chocante, palhaços começando a virar homens.
Eles ainda parcialmente empalhaçados carregando caixas, rolando coisas, arrumando o circo... não combinava.
Palhaços são palhaços, não são homens.
Ou quando viram homens deixam de ser palhaços. Isso ficou claro quando nosso tio-herói – que sempre trazia coisas interessantes da rua: dentes de tubarão, uma carta urgente para ser lida na presença de todas as crianças, cubos de geleia e, às vezes, pessoas, velhos novos amigos – veio acompanhado de um senhor alto, terno com colete, educado, solene. Como sempre, bancando o mestre de cerimônias, ele anunciou:
Este é o senhor, o senhor... “Como vai, como vai, como vai???“
Era o palhaço Arrelia, disfarçado de Waldemar Seyssel.
Lá vem o molequinho de vela na mão para terminar nossa brincadeira.
Vejo que esse passado não é apenas memória. Sou eu no presente.
E na minha filha, que não viveu nada disso, mas que de alguma forma também é tudo isso, vejo o meu futuro.
O que me faz pensar em algo divertido e rir do destino. No futuro serei mulher. E linda.
Peço licença a você (e, data venia, filha) para dedicar esta página a ela.
A toda ela.
E, naturalmente, a eles.
A todos eles.
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Luiz Toledo nasceu em São Paulo. É publicitário. Tem 52 anos, mas aparenta querer ter muito mais.

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AZUL

Adriane Galisteu para a revista Playboy.

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HOMEM

As fotos e a entrevista de Tarciso Meira para a revista GQ deste mês.

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Se tem alguém por aqui que dispensa apresentações é Tarcisio Meira. E é por isso mesmo que ele merece algumas reflexões. Para mim, Don Pedro II tem a cara ele. Ou o contrário. Com Tarcisio Meira, depois destes anos todos em que a cotidiano e ficção se misturam não sei muito bem onde começa a lenda e onde termina a realidade. Ele é, talvez, o único ator que conseguiu passar intacto através de uma vida inteira sendo mocinho das tele novelas brasileiras. E isto não é uma tarefa fácil, em geral o público prefere acompanhar a falta de caráter dos vilões do que o sofrimento dos mocinhos. Tarcisio Meira conseguiu fazer com que seus personagens fossem aceitos pelos espectadores e, mais ainda, que sua figura monolítica passasse a formar parte da vida real dos brasileiros.
Quando Tarcisio entra na minha sala a sensação que tenho é que me encontro com o tio que nunca tive, o vizinho que gostaria de ter tido, o ombro amigo em que gostaria de ter encostado minha cabeça para contar alguns problemas. É como se Tarcisio Meira fosse da família. Uma família imaginaria que aparece e desaparece regularmente, com a precisão de um cometa, na tela da televisão.

JRD.- Cheguei no Brasil em 1970. A primeira vez em que o vi foi como João Coragem. Anos depois, você afirmou que os Irmãos Coragem fez com que os homens passassem a assistir novela. É isso mesmo?
TM.- É verdade. Até então tínhamos histórias melosas, românticas, voltadas para o público feminino. Por isso alguns atores não queriam fazer. E Irmãos Coragem tinha um quê muito de aventura. A Janete [Clair] era uma mulher que sabia escrever para homem. No último capítulo, que foi numa sexta-feira, deu mais ibope do que Brasil x Itália na Copa do Mundo. Acabamos com 93 pontos. E as novelas tornaram-se importantes porque elas costuraram o país, uniram as pessoas.

JRD.- Como uma mecanismo de integração?
TM.- Sim. De repente o Brasil virou brasileiro [risos]. Também por isso sou muito fã da televisão. Pelo dinamismo que ela vem tendo ao longo desses anos todos e pelas oportunidades. O Marcelo Mastroianni dizia que só no Brasil tínhamos personagens vivos. Na Europa as obras são acabadas, os personagens são maduros, finitos.

JRD.- Me perdoe se eu estiver errado, mas essa mesma TV que o idolatra o transformou em um galã. Talvez essa palavra...
TM.- ...não vejo como pejorativa não. É a característica de um ator em determinados tipos de papeis.

JRD.- Você é um eterno galã, mas ganhou um prêmio da APCA [Associação Paulista de Críticos de Arte] como vilão, o Jerônimo Taveira de A Muralha [2000]. É muito mais fácil ser o mal?
TM.- O galã, coitado, é o sacrificado. Ele tem que agradar um universo maior de pessoas. São homens mais sentimentais. Não são personagens voltados para o cotidiano, para o social, para a luta, para a vida de uma maneira geral e de uma maneira mais séria.

JRD.- Tem algum que você tenha detestado?
TM.- São realmente papeis muito bobos. No momento em que me permitiram deixar de fazê-los, daí comecei a me divertir.

JRD.- Sempre penso assim: Tarcísio Meira está na sua fazenda e aí toca o telefone e oferecem um papel. Como é essa relação? O que faz você decidir pegar um trabalho ou não?
TM.- Acredita que estou na Globo desde 1967 e nunca recusei um papel? Tem sido uma trajetória boa, bem construída. Praticamente vim junto com a televisão. Ainda sou da época em que era tudo muito primitivo, as câmeras eram pesadíssimas. Lembro quando os alemães vieram ao Brasil implantar o sistema PAL-M. Eles ficaram admiradíssimos com a maneira improvisada como nós usávamos o equipamento de externa. No cinema também era assim. Por isso deixei de filmar há 20 anos. O último filme que rodei foi Boca de Ouro. Cinema era uma dificuldade, uma tensão, o filme era caríssimo e todos eram muito pobres.
E como foi sua volta à tela grande no filme Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo?
Uma maravilha, porque o cinema nacional agora é outro. As pessoas fazem publicidade para financiar seus projetos.

JRD.- Umas das frases que se repete muito nesse longa dirigido por Hugo Carvana é: “Aconteceu uma cagada”.
TM.- Uma atrás da outra, muitas cagadas. Meu personagem é um tipo desonesto, que engana as pessoas, mente. Ele tem a ingenuidade do brasileiro, meio malandro, aquele que engana e cativa porque faz tudo com simpatia, com boas intenções.

JRD.- De uma certa maneira, carvana têm essa verve Vai Trabalhar Vagabundo [longa dirigido por ele e lançado em 1973].
TM.- Diria que é uma pureza dentro da malandragem. Não tenho visto nada assim ultimamente. Tenho assistido a muita coisa forte, violenta.

JRD.- Vamos ter um Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo 2?
TM.- Não sei [rindo]. A história terminou de uma maneira que até poderia ter uma sequência.

JRD.- Dentro desse assunto que vai da arte à realidade, você também filmou com o Walter Hugo Khouri, o Eu (1986). A grande pergunta desse roteiro era: “pode um homem amar várias mulheres ao mesmo tempo?". Acha isso possível?
TM.- Esses tipos de considerações, esses pensamentos, essas reflexões são muito vagas. Eu não seria capaz de amar duas mulheres ao mesmo tempo, nunca aconteceu comigo nada nesse sentido.

JRD.- Em 1961 você contracena com Glória Menezes na radionovela Um Pires Amargo. Poucos meses depois, estavam juntos. Casamentos entre atores têm outras regras? Enfim, imaginando que você trabalhou com as mulheres mais lindas.
TM.- Nós somos mais expostos. Têm interferências, tem imprensa, tem implicações dos personagens. As pessoas confundem muito. Pessoalmente, sou um privilegiado, estou casado a quase 50 anos, amo minha mulher e sou muito amado por ela. Sou um homem feliz.

JRD.- Você é ciumento?
TM.- Já fui mais. [Risos].

JRD.- Quem é mais ciumento? Você ou ela?
TM.- Não sou muito ciumento e nem minha mulher. Somos atores e a gente sabe bem como funcionam as coisas, como são os beijos. As pessoas falam em beijo técnico. Tolice.

JRD.- Finalmente alguém reconhece que não existe beijo técnico.
TM.- É técnico porque não vem da vontade. Ele é feito através de um artifício, de uma situação, de um sentimento do personagem. E o ator, nesse caso, só está pensando no que vai falar logo em seguida, está se preparando para o tapa na cara que ele vai levar, entendeu?

JRD.- Existe alguma coisa que você não faria? Normalmente os atores estão sempre abertos, eles são como uma parabólica para captar sensações.
TM.- Tenho um certo constrangimento com a idade. Por exemplo, beijar uma colega. Penso: “ela vai beijar um homem de 75 anos”. Tenho uma certa reserva com isso. Com coisas com relação a minha idade e a impropriedade de fazê-las. Isso também me aflige na escolha dos projetos. Alguns anos atrás, por exemplo, quando a Globo fez 25 anos, o Manuel Carlos me falou: "quero fazer O Tempo e o Vento do Érico Veríssimo e você será o Capitão Rodrigo". Ele é o grande papel, o grande macho brasileiro, adorado por todas as mulheres e todos os homens. Fiquei muito feliz com a ideia e eles não toparam fazer. Dez, 15 anos se passaram e me chamaram para fazer O Tempo e o Vento. Dessa vez não mais o Capitão Rodrigo, mas o Licurgo Cambará. Estava de férias, e uns 15 dias depois recebo um telefonema para fazer o Rodrigo. Não podia, estava com 51 anos e não tinha como viver um homem de 32 anos. Acabei vindo para o Rio, aceitei e parece que deu tudo certo. Lembro que, na época, chegou uma figura que tornou-se meu amigo e ele me disse: “[impostado a voz] Tu vais fazer o Capitão Rodrigo? Tens de ser macho, hein? Porque o Capitão Rodrigo é muito macho". E eu: “não basta que eu seja macho, também tenho que representar? [risos]”. Essas coisas me dão certa insegurança. Eu pensava: “já estou meio velho, daqui para frente é a decadência”. Você começa a fenecer.

RT.- Quando a gente estava fazendo as fotos dessa entrevista, vi que você lida muito bem com a câmera, claro. Fiquei pensando: “como lida com o espelho?”
TM.- Para a minha idade está legal. Virei um velhinho simpático, bonitinho.

JRD.- Você me parece uma pessoa bastante ponderada. Algo o tira do sério?
TM.- A inconsequência de certas pessoas, a desonestidade, homens públicos corruptos: isso é uma coisa intolerável para mim. Confio em uma pessoa, voto nela e descubro que não é bem aquilo. Fico numa frustração que você não queira saber. Acho intolerável que alguém engane o povo. Os homens públicos deveriam ter responsabilidades que eles não querem ter. Quando eu vou para a Europa, gosto de começar a viagem pela Suécia, pela Dinamarca. As pessoas lá são muito civilizadas e levam a vida de uma maneira muito sábia. Eu os invejo pelos país que têm, pelos homens que trabalham, pela maneira como resolvem os problemas deles. É um banho de civilidade.

JRD.- Vou voltar novamente nessa questão imagem e realidade. Você é um super homem. Sinto uma força, uma gentileza, um cavalheirismo, enfim, obviamente, o fato de acompanhar as novelas dá essa intimidade, esse senso de aproximação. Você é durão ou uma pessoa sensível?
TM.- Sou muito emotivo. Choro à toa. [Risos]. Mas isso que você está falando bem curioso. As pessoas têm uma intimidade comigo que você não acredita. A mulher que senta no meu lado no avião me conta a vida dela, intimidades. “Mas por que meu deus do céu? O que é isso?” Isso me dá muita responsabilidade. Tenho de ser uma pessoa ponderada, procuro ouvir e falar as coisas certas porque as pessoas esperam isso de mim. Não posso ser um porra louca solto no mundo. Não me sinto com o direito de frustrar ninguém, de maltratar, de fazer como certos colegas que, às vezes, têm reações desagradáveis com relação ao assédio. Realmente esses fãs podem incomodar e impedir sua liberdade. Você quer fazer uma compra e não deixam. Mas a gente tem de ter paciência porque é esse público que valida toda a sua carreira.

JRD.- Alguma vez esse homem tão equilibrado chutou o balde?
TM.- Não sou exemplar. E odeio que pensem em mim dessa forma.

JRD.- Se Tarcísio Meira não é exemplar então acabou tudo!
TM.- Procuro ser o melhor possível, mas não sou um bom exemplo. É que as pessoas não conhecem o meu mundo, que compartilho com poucos. E não sou daqueles que opina sobre tudo. Se tenho algum poder - por menor que ele seja - posso interferir na cabeça de alguém e pode ser que eu erre. Se eu fizer as pessoas errarem, o erro vai ser muito maior.

JRD.- Sua família apoiou o fato de você virar artista? Como alguém que tem no seu DNA Tiradentes, Vital Brasil, Oscar Americano decide, nos anos 50, que ia ser ator?
TM.- Sempre fui garoto muito namorador. Um dia uns amigos com os quais eu frequentava o Clube Pinheiros em São Paulo, me falaram: "Tarcísio, nós fazemos teatro amador aqui. Nós vamos ensaiar uma peça que tem um monte de meninas, vai ser uma folia.” Falei: “vamos lá”.

JRD.- Tudo começou com as atrizes, então?
TM.- Gosto muito de mulher. Acho mulher uma coisa fantástica. Fomos fazer a peça e o diretor não conseguia ensaiar porque eram muitos rapazes e muitas mocas que sumiam para namorar. Era uma peça do José Gondim Filho chamada A Hora Marcada. Nós fizemos este espetáculo e e ganhei prêmio em festival de teatro amador. Nessa ocasião, o [ator] Sergio Cardoso, que era um dos jurados do festival, me mandou um recado avisando que se quisesse fazer teatro profissional eu o procurasse. Dois anos depois, estava meio aborrecido, tinha sido reprovado no vestibular e decidi ser ator. Fui na hora procurar o Sergio Cardoso no teatro dele, o Bela Vista. Mas agora eu tenho uma dúvida, como você sabe essa história do Tiradentes, do Vital?

JRD.- Fiz a lição de casa, pesquisei.
TM.- Certa vez, meu tio Tarcísio contou, com certa reserva, que éramos descendentes do Vital Brasil. Sabe o por quê da reserva? Somos amaldiçoados. Não se falava nisso na minha familia porque a rainha de Portugal condenou Tiradentes à forca. E ordenou que suas partes fossem salgadas e exibidas ao público. A partir daí, todos os seus descendentes seriam amaldiçoados. Minha família é espalhada um pouco por Minas Gerais, São Paulo e Rio também. O Vital era primo-irmão de meu pai e ele casou-se com a irmã de meu pai. E o Vital é irmão do Oscar [Americano]. Ele tem esse nome porque o pai do Vital era um homem muito curioso que batizava as pessoas com o lugar onde elas nasciam. Então ficou: Oscar Americano Índio do Brasil. O Vital é: Vital Brasil Mineiro de Guaxupé. E realmente temos esse parentesco. Quando surgiu essa questão de procurar a descendência no DNA das pessoas, também descobri a quantificação de índio, de negro e de branco que carrego comigo. O povo brasileiro é isso mesmo: esse cadinho de muita gente.

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CONECTADOS (2)

Carmen, Miro, Panessa e Juliana, os quatro personagens reais da Ford Connect e suas impressões.





PANTONE

Renata Sozzi para a revista Bobstore.

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