ENTREVISTA

A entrevista com Luana Piovani para a revista GQ de março.

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Algumas das melhores fotos que já fiz em minha carreira foram com Luana Piovani. Toda vez que ela se colocou na frente de minha câmera – nua ou vestida, em editorial de moda ou e campanha de publicidade – ela o fez sem vacilar, encarando os desafios da ocasião, e segura, muito segura, do que estava projetando para os leitores. Porque Luana é, antes de mais nada, uma mulher sem medo. Que enfrenta qualquer situação da maneira mais direta possível, custe o que custar. E, quase sempre, isto não é pouca coisa. Da maneira como encara a vida a sensação que se tem é que se ela tivesse nascido nos Estados Unidos teria queimado seu soutien em praça pública apoiando o movimento do Woman’s Lib nos anos 60. Com certeza, estaria ao lado de Jane Fonda nos anos 70 lutando contra a guerra do Vietnã só pelo prazer de entrar uma boa briga. Como ela é brasileira, e nasceu bem mais tarde do que tudo isso, vai enfrentando, com muita firmeza, todas as ocasiões em que alguém tenta levantar alguma barreira na frente dela. E não são poucas. Especialmente em sua vida pessoal. Numa sexta, depois de uma quarta feira de cinzas de um Carnaval que ela decidiu passar em Nova York, nos encontramos em uma suíte de hotel no Leblon. Luana se esparramou na cama para os snap shots que acompanham esta entrevista. Depois, com calma, conversamos pela primeira vez sobre muitas coisas que sempre quis perguntar a ela.

Duran – Você foi ao sambódromo do Rio assistir ao desfile das campeãs. Teve de vestir a camiseta de cerveja?
Luana – Vesti camiseta de cerveja.

Você ganha para isso?
Não. Adoraria ganhar para isso, mas me sinto privilegiada de qualquer maneira, porque eles são sempre muito gentis comigo. Todos os meus amigos que eu peço para eles deixarem ir comigo são liberados. A primeira vez que eu fui em um camarote no carnaval eu tinha 17 anos.

Já podia entrar nessa idade?
Essa pergunta você pode fazer para o advogado deles. Com 16 anos eu tinha feito uma mini série que tinha abuso sexual, porque não poderia entrar no camarote com 17? Peraí, deixa eu pensar… será que eu tinha 18? Porque eu fiz 16, na época de Sex Appeal, aí eu fui embora e voltei pra fazer 4×4 com 18. Isso! Eu tinha 18.

Ok, fico mais tranqüilo, então. Quando eu fecho os olhos – como diz o Fagner, “Quando eu fecho os olhos de saudade” -, me vem uns flashes embaralhados seus: você numa capa de revista adolescente segurando uma camisinha; você me entrevistando nos bastidores do Phytoervas Fashion e eu perturbado com o seu decote; você em Sex Appeal, a minissérie da Globo; você, nua, beijando um jacaré inflável em fotos que fizemos há alguns anos; e, finalmente, você em Alice, no palco de um teatro. Quem é mais você nestas imagens todas?
Olha, posso dizer o que cada uma dessas imagens remete a mim e posso dizer, entre elas, o quê que eu sou. Por exemplo, a capa da camisinha – vou falar porque é uma história engraçada. Tanto fazendo Sex Appeal, quanto na capa da camisinha, eu estava super nervosa porque nunca tinha segurado uma camisinha em toda a minha vida! Em Sex Appeal, por exemplo, me lembro que eu tinha que fazer uma seção de fotos na cama em uma cena, com lençóis e uma camisola de seda e renda. Lembro o quanto que eu suava de tão nervosa. Porque aos 16 anos eu era muito menina e nunca tinha deitado numa cama com ninguém. Assim como não tinha pegado uma camisinha ou usado uma camisola de renda. O meu trabalho me colocou num lugar que eu não conhecia, então, me lembro do meu nervosismo em relação a isso. Mas eu sou muito a tua imagem “eu beijando o crocodilo”, porque me lembro desse milésimo de segundo: você me mostrou o crocodilo e eu, super feliz – graças a Deus eu tenho essa coisa solta e feliz mesmo comigo –, sentei no crocodilo inflável e foi quase um reflexo, tipo “que gostoso esse crocodilo”. Então dei tipo um mata-leão nele, puxei ele pra trás e dei um beijo nele. É muito essa coisa impulsiva que eu tenho, que hoje eu já tô bem melhor porque, graças a Deus, tô fazendo 35 – você tá falando de uma época em que eu tinha 25. E tem a Alice, que é a coisa que mais me dá prazer na vida: estar no palco contando uma história.

É curioso isso. Como você administra estes extremos: em uma ponta você é a Alice, e, na outra, é uma das mulheres – desculpe a expressão – mais gostosas do Brasil? Como é essa ponte?
Dentro de mim isso é muito facilmente compreendido porque sou muitas pessoas dentro de uma. Eu me sinto sensual, me sinto gostosa, mas tem dias que eu não me sinto assim. Hoje, vindo pra cá, fazendo pela primeira vez fotos minhas morena, eu vim feliz porque já estava vindo gostosa. Isso tem a ver comigo, tenho uma segurança quando fotografo, é uma coisa que eu faço há muito tempo, que eu gosto muito, eu sei o quê que é bom e o quê que não é. Normalmente, só faço isso, principalmente com essa intimidade, com alguém que eu confio muito – no caso, você. Para as pessoas entendo que deve ser um pouco confuso, mas também acho que elas entendem porque eu construí a minha carreira de uma maneira muito livre, fazendo sempre o que eu acreditei e o que eu tinha vontade. Não me engessei em nenhum tipo de rótulo porque fui modelo, daí comecei na televisão sendo protagonista de uma minissérie – o crème de la crème dentro da televisão. Ao mesmo tempo, quando aquilo acabou eu não quis continuar, preferi voltar pra minha casa. Sempre fui muito instintiva e acho que isso me fez uma hora apresentar um programa em Nova York; outra hora fazer fotos sensuais para revista aos 20 anos.

As pessoas, então, se acostumaram com você sendo várias em uma só?
Acho que sim, acho que as pessoas nunca se acostumaram a me ver exatamente de um jeito. Eu tô sempre surpreendendo, mesmo porque nunca fui exatamente só atriz, né? Acabei me tornando produtora, já fui apresentadora, depois entrei num programa de debate com um bando de mulheres mais velhas, que já tinham outras experiências de vida. Acho que eu nunca engessei o meu formato dentro da cabeça do espectador.

E isso é bom ou ruim?
Eu acho que isso é bom porque as pessoas acabam me aceitando. Se eu fosse uma atriz que sempre faz a mocinha, acho que as pessoas teriam uma rejeição em me ver fazendo uma personagem mau caráter. Ou se eu fizesse só teatro infantil, acho que as pessoas teriam uma rejeição se eu fosse fazer um ensaio sensual, entendeu?

Entendi. Mas ao mesmo tempo em que você pula tranquilamente de um lugar para o outro, você deixa de seguir uma trajetória normal dentro da profissão de atriz. Você pagou caro por estes, digamos, desvios?
Paguei. E pago até hoje. E é um preço alto. Mas tenho uma vida que, em minha opinião, é muito privilegiada, porque me traz muita alegria e felicidade. Tenho a minha segurança financeira, ajudo as pessoas que eu quero e posso, pago os meus luxos. Eu vivo de acordo com os meus ideais, e isso tudo é muito bom, né? Hoje em dia, existem poucas pessoas que têm a possibilidade de dizer que fazem o que gostam. E eu tenho esse privilégio. Então, na balança, eu tô no lucro. Mas é que o meu lucro é muito alto, porque o preço que eu pago é muito, muito caro. É muito difícil você ser observada o tempo todo, é muito difícil você ser julgada o tempo todo. É muito ruim, mas sou muito sincera com os meus princípios. As pessoas têm uma tendência a achar que quando dou a minha opinião eu tô querendo dizer uma verdade, e não é… é só uma opinião. Muitas vezes tudo o que eu quis na minha vida foi, simplesmente, paz. Hoje eu cheguei de Nova York e ontem eu senti um frio na barriga, estava tensa de voltar porque toda vez que eu estou fora do país tenho uma sensação de liberdade, de indivíduo, de cidadania que aqui eu não tenho.

Uma sensação de, digamos, falta de liberdade?
Acho que é. É falta de pri-va-ci-da-de, não é liberdade.

Você acha que essa é uma sensação comum a todos os seus colegas ou você sente mais isso em você por algum motivo qualquer?
Eu não sei… A impressão que tenho é que, talvez, faça mais falta pra mim do quê para os outros porque eu prezo muito a minha liberdade como indivíduo. Eu sei que não faço exatamente parte de um rebanho e que não tenho uma vida exatamente convencional – mesmo sendo atriz, as minhas escolhas nunca foram as convencionais. Porque se você for pensar, Duran, eu fiz uma única novela inteira em toda a minha vida. Não era pra eu ser tão famosa assim.
Talvez seja porque poucas atrizes que fizeram uma novela só na vida tenham o sex appeal que você tem ou despertem tantas fantasias quanto você desperta.
É, mas também acho que tem a coisa do gosto. Tem gente que fica amigo de paparazzo e avisa aonde vai, entendeu? São opções diferentes das minhas, a mim incomoda de verdade, mesmo. Eu me sinto muito tolhida. Porque uma coisa é o cara tirar uma foto de você lá longe, e eu já entendi que enquanto tiver gente que consome isso vai existir. Mas o cara tem que ter a dignidade de saber até onde ele pode ir mesmo sendo um trabalho de invadir a privacidade. Tem muita gente no meio artístico que acaba curtindo. Não sei se acostumou, ou se simplesmente gosta – eu não tô julgando, só acho que é muito diferente de mim.

Você é uma pessoa de pavio curto?
Sou.

Isso ajuda?
Não, isso atrapalha. Mas ao mesmo tempo me coloca num lugar de muito respeito. Porque as pessoas sabem que eu conheço os meus limites e que eu faço questão de mostrá-los. “Meu limite é até aqui e eu espero que voe não passe dele.”

Sex Appeal, a minissérie, está no ar de novo. Tem você, Camila Pitanga, Danielle Winits e Carolina Dieckman. Todas, na época, jovens promessas da televisão brasileira. Me parece que elas seguiram uma carreira de atriz, voltadas para uma trilha que tem um começo e um final.
Sim, uma coisa mais convencional.

Sim, pode ser essa a palavra. As escolhas, como você mesma disse, têm suas conseqüências. Você pensava nisso naquela época?
Olha, foram dois momentos. O primeiro foi muito ingênuo: eu fui pré-selecionada por book pra fazer o teste. Daí, fiz o teste como eu fazia qualquer casting para qualquer trabalho. Daí, me ligaram falando que eu passei. E no segundo teste que havia eu senti a pressão porque eram quatro meninas já como protagonistas. Mesmo assim fiz sem peso nenhum porque a minha realidade era muito diferente. Eu não sabia nem que existia a palavra protagonista. Eu estava há quatro anos em São Paulo, tinha saído de uma cidade de 80 mil habitantes onde só havia dois colégios. Eu conhecia o Mc Donalds fazia dois anos. Aquilo tudo era muito distante pra mim, então, fui totalmente no escuro e quando eu comecei a trabalhar fiquei muito assustada. Porque os meus pais sempre trabalharam, eu não tinha “mãe de miss”, ela não podia estar comigo o tempo todo. Minha mãe veio comigo para o Rio de Janeiro porque eu nunca tinha colocado os pés aqui, viu que o hotel era digno, conheceu o motorista que ia me carregar e falou: “Minha filha, boa sorte, estou voltando pra nossa casa”.

Este foi o segundo momento?
É, e no Rio passei três meses e meio trabalhando como uma louca porque eu era protagonista da minissérie e o papel era de modelo. Havia muitas cenas em que tinha que ter foto minha, então, o tempo todo eu gravava ou fazia foto. Fiquei exausta, não tive vida pessoal. E não tive nenhum tipo de respaldo, não tive uma professora que me ensinou a falar, eu estudava na frente do espelho. Quando acabou eu só queria ir pra minha casa. Eles me chamaram pra fazer outra novela depois como protagonista e eu falei: “Queridos, agradeço. Que bacana que vocês gostaram e estão me convidando pra fazer outra coisa, mas eu preciso voltar pra minha casa!”. Eu estava sentindo saudade de morar em casa, dos meus amigos, de viajar, sabe, de ter mais liberdade. Porque eu trabalhava de segunda a sábado das 10 da manhã às 10 da noite. Praticamente, virei uma executiva mesmo trabalhando com arte. Por isso não me senti realizada depois de Sex Appeal. Muito pelo contrário, me senti exaurida e quis partir. Eu só descobri que o que eu queria fazer da minha vida era ser atriz quando eu fiz a minha primeira peça de teatro, aos 19 anos.

Como se chamava a peça?
"Nó de Gravata". Era uma peça jovem que eu estreei no Rio, no teatro Candido Mendes, que tem 55, 60 lugares. Depois de Sex Appeal eu fiz um Você Decide, fiz uma participação em 4×4. E em 4×4 eu já achei legal porque o meu personagem era de comédia e não era a tal da protagonista, eu gravava só duas ou três vezes por semana e tinha os outros dias para cuidar da minha vida. Mas a coisa que você quer fazer a sua vida inteira tem que ser mais forte do que “achar legal”. Quando eu fiz Nó de Gravata foi arrebatador. Pensei: “Ah, é isso que eu quero fazer!”.

Nesse momento em que você teve esta epifania você sentiu que havia conseguido o que queria? Foi o momento em que você pensou: “Cheguei onde eu queria e a partir de agora posso fazer o que quiser”?
Não, aí demorou muito mais! Só fui pensar assim, tipo “cheguei aqui e é daqui que eu vou pra evolução” quando produzi a minha primeira peça.

“Agora eu sou foda!”
Não, no “agora eu sou foda!” eu ainda não cheguei exatamente. Mas quando produzi a minha primeira peça, aos 21 anos, vi que não precisava mais esperar o telefone da minha casa tocar. Tenho muito gosto pela liberdade e foi ali que eu falei: “Eu tenho a força!”. She-ra!

Você tem a força, mas o que você não fez ainda?
Eu não fiz nenhum clássico no teatro. Não fiz a minha faculdade de Psicologia. E ainda não toco nenhum instrumento.

Bom, o clássico você vai poder fazer, a faculdade eu duvido.
Vou fazer! Minha mãe se formou com 50 anos e está trabalhando muito, por incrível que pareça.

Então com quantos anos você se vê psicóloga?
Ah, eu me vejo uma psicóloga com 50. Porque acho que ainda tenho que matar muitas vontades. A da faculdade existe, mas ela consegue esperar. Por exemplo, violão tem que ser anterior à faculdade.

Ah, então tem uma progressão de vontades.
Tem! Até os 40 eu quero falar três línguas e tocar um instrumento. Sou virginiana, né, Duran!

Tem uma coisa curiosa sobre você. Você assume toda a sua sensualidade, o teu corpo, a mulher gostosa, e, ao mesmo tempo, não tem nenhum problema em virar o Pequeno Príncipe e tosar o cabelo. Mas, por outro lado, você não chega a um acordo para fechar um contrato para fotografar nua. O que pega pra você?
É… deixa eu pensar por que… Eu nem sei se tenho exatamente essa resposta. Acho que é porque eu não quero dar o que todo mundo está querendo.

Isso tem um duplo sentido.
Eu não estou aqui para satisfazer os outros, estou aqui para me satisfazer.

Em que momentos você se sente mais feliz?
Olha, a minha felicidade se dá de várias maneiras. Por exemplo, fico muito feliz quando estou na praia. O meu lugar é a praia. Eu me sinto plena, me sinto forte, o sol me faz bem, me sinto livre, eu não tenho vergonha de ser quem eu sou, de não ter a bunda que eu sempre quis.

Você não tem a bunda que sempre quis?
Não, eu não tenho a bunda que eu sempre quis. Mas ela é resultado da vida que eu tenho.

O que é há de errado com a sua bunda?
Não, não tem nada de errado com a minha bunda. Mas a bunda que eu sempre quis era outra. São coisas diferentes.

Então você concorda com Milan Kundera quando ele diz que a vida está sempre em outro lugar?
A satisfação está sempre na frente, né?

A gente foi de bunda pra Milan Kundera!
Eu acho que isso tem muito do Freud, a gente deseja e quando tem quer desejar outra coisa. Falando de carreira, tem dois momentos em que eu fico absolutamente extasiada de felicidade. Um é quando consigo patrocínio para o meu projeto. Não quando eu saio de uma reunião com o “ok”, mas quando o dinheiro entra na conta mesmo, que é bem lá na frente. Já tive que tomar muito floral, já perdi muita noite por causa de insônia, nervosa, já comi muito a minha unha, já chorei de ansiedade. E outro é quando a gente está no meio do processo de ensaio, eu amo ensaiar. Pra mim, ensaio é quase a melhor parte de fazer teatro.

E o oposto disso para você, o que é?
O oposto é você ser obrigada a fazer alguma coisa. É exatamente o oposto da liberdade, de você não ter que satisfazer ninguém, de satisfazer a si próprio.

O quê que você já foi obrigada a fazer?
Eu fui obrigada a fazer Malhação. Que, no fim das contas, foi muito bom para mim.

Então não seria um ponto baixo na sua carreira.
Foi um ponto baixo porque eu fui obrigada. Eu recebi um telefonema, fui convidada, recusei o convite e, no dia seguinte, chegou um telegrama dizendo: “Confirmamos você no programa Malhação, ligue para os telefones tal e tal”. Foi muito difícil ser obrigada a fazer.

Mas acabou sendo uma coisa boa, não?
Sim, mas tem uma coisa: acho que na vida a gente tem que ter sorte, mas tem que ter também muita inteligência. Malhação foi o meu primeiro contato com o público jovem, antes de eu produzir a minha primeira peça. Eu saía na rua e os adolescentes estavam enlouquecidos com a personagem que eu fazia. Foi aí que eu vi que eu tinha uma comunicação com o jovem, com o mais novo. E fui gostando de lidar com eles, de ser parada por eles na rua, de representá-los de alguma forma.

Você namorou caras que me parecem bastante diferentes, como o Rodrigo Santoro e o Dado Dolabella. Por quê?
Todas essas pessoas tão diferentes têm uma coisa em comum: ele são belos. Talvez esteja na hora de eu quebrar meu padrão. Porque eu aprecio o belo. E, às vezes, isso me trai. Preciso quebrar esse padrão e mudar o foco. Porque, daí, talvez eu consiga encontrar pessoas que tenham mais a ver com o meu way of life, com a minha essência. Não sei se posso generalizar porque tive pessoas muito especiais na minha vida, mas acho que busquei até hoje homens que tinham não valores diferentes, mas ambições diferentes das minhas. E, não tem jeito: chega uma hora que cria um gap – ou um está na frente e o outro está atrás, ou um quer virar para a direita e outro para a esquerda. Mas eu gosto do belo no todo. Eu gosto de flor em casa porque deixa o ambiente mais bonito, gosto de me vestir bem para estar bonita, gosto de belas paisagens, gosto de belos quadros. O belo faz bem aos meus olhos.

Você acabou de dar uma dica aos não belos: eles também podem se aproximar de você, a fase dos só belos se encerrou.
Não, eu não disse que se encerrou! Eu disse que espero conseguir mudar o meu padrão.

Mas você abriu uma porta aqui para as pessoas que não são tão estética e fisicamente avantajadas. Que dicas você dá pra alguém chegar perto de você e conseguir te impressionar?
Eu acho que precisa ter inteligência e humor. Eu tô vendo se eu tiro o belo e coloco isso como prioridade: inteligência e humor.

Certo, mas isso é uma coisa nova ou é um denominador comum?
Não, sempre teve, mas o fator número um sempre foi o belo. Eu tô querendo ver se eu troco a prioridade, sabe?

Então podemos dizer que inteligência e humor substituem o belo. Melhor: compensam.
Compensam, ah, compensam! Porque, a longo prazo, o belo se perde, né?

E é consciente essa sua busca pelo belo?
É superconsciente. Não é que eu não abro porta, é que meu olho não brilha, entende? Eu tô tentando abrir a porta, posso dizer que estou com a chave na mão. Talvez seja o momento de eu ficar um pouco comigo também, coisa que eu nunca consegui. Vamos ver.

E entre seus relacionamentos com os belos você mantém amizade com algum deles?
Com alguns poucos.

Pois é, me parece sempre que seus finais são conturbados. São mesmo?
Complicados e conturbados. E são vários os motivos. Eu concordo com você porque acho que tem a ver com a minha personalidade também. Hoje, com 35 anos, já com quase 15 de análise, eu tô muito melhor. Mas sou impulsiva, tenho uma personalidade forte, gosto de entender. Então, quando você me diz uma coisa, você tem que ter argumento. Não pode simplesmente me dizer que essa parede é branca – eu acho que ela é amarela, vamos conversar. E porque eu tenho uma vida difícil. O meu trabalho é ser atriz, o cara tem que ter muita segurança pra achar que nada vai acontecer enquanto a gente está ali fazendo cena. E também porque eu viajo muito – como diz minha mãe, eu nasci com o passaporte na mão. E porque se eu tenho vontade de fazer eu faço. Ainda não tenho nada exatamente que me prenda. Ah, e ainda tenho sangue quente, tenho personalidade forte. Não aceito determinadas – várias! – coisas. Sei muito bem o que eu não quero.

O homem brasileiro, na verdade, o homem em geral, não gosta de mulheres fortes.
Também acho. Na modernidade, apesar de a mulher estar emancipada, ganhando bem, tomando empregos de homens executivos e tal, e o mundo todo vendo isso acontecer, é uma coisa que ainda não foi para o DNA do homem. E a essência do homem latino ainda é muito machista.

Você foi exposta e julgada por trair um namorado, no caso o Santoro. Essas coisas acontecem com todo mundo, mas não publicamente. Você já resolveu isso com você mesma?
Eu acho que essas coisas acontecem com todo mundo, e, uma vez que você é famoso, todo mundo vai saber. Eu tinha vinte e poucos anos, namorava e isso é uma coisa absolutamente normal na vida de todas as pessoas. O que acontece é que eu fazia parte do casal 20 do Brasil e as pessoas não estão preparadas para alguma coisa que não seja o convencional.

Você se arrepende?
Eu me arrependo de ter acontecido como aconteceu, porque sei que fiz mal para uma pessoa que eu admiro muito. Mas faz parte dos 21 anos você não ser a pessoa mais cuidadosa do mundo. Então, não me culpo. Eu paguei esse preço, carreguei essa cruz durante anos, essa culpa, mas ela já não existe mais.

Em que momento você pratica suas extravagâncias? Em que momento você indulge yourself, como dizem os ingleses?
Eu pago os meus luxos. Gasto em jóias, gasto em viagem, gasto em hotel. Mas não tenho vontade de ter uma casa de frente para a praia, uma casa em Angra, um iate ou um helicóptero. Gosto de viajar, de ficar nos melhores hotéis, de entrar na loja e comprar o que quero. E gosto de dividir o que tenho. Gasto meu dinheiro me fazendo feliz e ajudando meus amigos, viajando com alguém que não tenha condições de viajar comigo. As coisas só me trazem felicidade se eu puder dividir. Se for só prá mim, já não me dá mais tanta alegria. Tenho que poder dividir.
Então com quem você vai dividir os US$ 2 mil que gastou em lingerie recentemente?

Os US$ 2 mil em lingerie eu gastei para fazer o figurino da série Mulher Invisível. O figurino é inteiro de lingerie e eu comprei coisas lindas, divertidas e que me vestem bem. Provei todas e estão todas aprovadas para o que quero expor do meu corpo, porque é um trabalho de grande exposição. Tenho que me sentir bem dentro do figurino.

Você tem medo de ser esquecida?
Não. Já me perguntaram isso quando eu larguei tudo e fui para Nova York. A resposta é a mesma: não tenho medo porque eu faço teatro. Se eu subir num banquinho em praça pública, começar a contar uma história e duas pessoas pararem, eu não fui esquecida.

Você tem falado com o Caetano?
Não.

Nunca mais depois que ele negou ter feito a tal música para você?
Não.

Nem ele tentou falar com você?
Silêncio.

Quem que você gostaria que realmente tivesse feito uma música para você?
Marcelo Camelo.

Quem mais você manteria a 250 metros de você?
Eu não quero dizer o nome para não arrumar mais uma confusão.

Quer dizer que só tem uma pessoa apenas?
Ah, nesse nível, só.

Quem é mais vítima nessa história: você ou o Dado Dolabella que tem que ficar eternamente a 250 metros de você?
Óbvio que sou eu! Sou eu e qualquer ser humano agredido, uma criança, uma mulher, um homem, um velho. Qualquer pessoa agredida fisicamente tem que ter o respaldo da lei porque isso aqui não é um zoológico. Estamos no século 21, isso aqui é uma democracia e as pessoas precisam saber que dentro de uma democracia existem direitos e deveres que precisam ser cumpridos para que a gente viva bem e em paz em sociedade.

Vi num recorte de jornal que a Maria Gadú disse ser ridícula a sua reação em um episódio envolvendo você e o Dado Dolabella em um bar. Você respondeu alguma coisa para isso?
Não. Na verdade, hoje em dia não acredito mais no que leio. Porque hoje, para fazer jornalismo, basta ter criatividade. Então eu não acredito que ela tenha dito isso. Eu só vou acreditar no dia que ela falar isso para mim. E, se ela falou, eu entendo, pois a gente tem uma tendência a defender a pessoa que a gente gosta. Mas acredito que se um dia ela viver o que eu vivi, ou, ainda mais hipoteticamente, ela vier a ter um filho – por isso que eu uso a palavra “hipoteticamente” –, aí acho que ela entenderá melhor ainda.

E o seu suposto envolvimento com maconha, como nasceu essa discussão?
Ah, fui sincera demais numa entrevista, era muito nova e disse que tinha experimentado. Como eu fazia uma peça infantil, isso teve uma repercussão muito grande. A gente vive num país hipócrita e eu não tava preparada para isso. Mas hoje já estou.

Como funciona esse jogo de espelhos entre a ficção e a vida real? Como você aconselharia as pessoas a viverem a vida real?
Fazendo análise.

Quando você diz que estaria preparada hoje, você quer dizer que mentiria ou que diria a mesma coisa de outra maneira?
Eu usaria outras palavras.

Você acha que sua maneira de ser, de enxergar o mundo e dizer as coisas diretamente te causaram muitos problemas?
Muitos.

E ainda causarão?
Não. Porque me deram o microfone ligado desde os 16 anos de idade. E alguém com 16, 20, 23 não pode ter maturidade suficiente para ter um microfone ligado na mão.



BIKE

Yasmin Brunet para a revista MGuia.

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ESTÚDIO (2)

Outras imagens de Renata Sozzi e Ricardo Fachinni para Mandi.

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